Coimbra  24 de Março de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Postal (des)ilustrado: O estado de saúde do SNS é comatoso

23 de Janeiro 2019

Não me posso queixar do SNS, em abono dos cuidados que me têm sido prestados.

Faltaria a um dos princípios bases da formação da minha vida e que me tem seguido: a verdade, acima de tudo. Depois vem o resto.

Também, verdade seja dita, e nestes últimos 12 anos, só tive dois casos de saúde graves, a exigirem internamento, sendo que um me atirou para a mesa das operações. Este foi um tumor na bexiga, mas benigno, felizmente. O outro, faz quatro anos, um aneurisma no cerebelo que me colocou, durante dois dias, em pré-coma e me atirou para uma das camas da neurocirurgia em mais 10 dias. Mas, e graças ao destino, à minha esperança e à minha força interior, a que associo a comprovada sabedoria e o profissionalismo dos profissionais de saúde do CUHC e, ainda, à minha fé no Alto, ultrapassei este duro golpe.

Mas, e o que me trás a escrever este texto, é o SNS.

Criado por essa figura da Região de Coimbra, o socialista António Arnaut, quando exerceu o cargo de ministro do sector, acolitado pelo amigo e obstetra Mário Mendes, o SNS vinha colmatar uma falha no sistema a nível nacional. Passava a ser um Serviço para todos e tendencialmente gratuito. Passava a ser uma benesse, perante tantos descontos. Passava a ser um porto de abrigo na hora de aflição de um quadro clínico a exigir a intervenção de todos os departamentos – centros de saúde, hospitais, áreas de diagnóstico, consultas e outras valências – a bem do doente.

Arnaut percebeu que os portugueses estavam carentes e abandonados em termos de cuidados de saúde. Arnaut quis alinhar, em formato e criação, um Serviço, o SNS, que pudesse ser transversal a todos e que estivesse acessível, em qualquer ponto, a todo o momento e com todas as suas capacidades em equipamento e em profissionais, ao serviço dos cidadãos.

Mas o SNS, principalmente nestes últimos 8 anos, tem vindo a degradar-se, por razões consabidas, de que a maior foi o precipício da bancarrota e, como consequência, o desinvestimento na saúde com toda a procissão de efeitos nefastos para o próprio Serviço e para quem depende dele, os doentes.

O caos tem vindo a instalar-se e, quando a propaganda mais recente dava nota de que se voltava a olhar de frente para o SNS, apurou-se, com divulgação de números, que se diminuíram uns dois milhões no sector público da saúde.

O estado da saúde – diz quem sabe e quem não tem medo de falar – é comatoso… entrou numa rampa de derrapagem. Não acode a quem o solicita. Tem enorme dívida a fornecedores. Tem falta de médicos, de enfermeiros, de técnicos e de pessoal auxiliar. Está com febre. Está doente. Está a entrar em agonia…

Muitos médicos, alguns responsáveis por especialidades médicas, pedem a demissão dos seus cargos, outros acusam e denunciam falhas, enquanto em zonas fora dos grandes centros urbanos a coisa espalha críticas e queixas que começam a preocupar os cidadãos. Os governantes afirmam o contrário para sustentarem o clima reinante que não corresponde à realidade e à verdade.

O SNS só tem funcionado porque todos os seus profissionais são gente de bem e cumprem com a sua nobre missão para que os doentes possam viver mais uns tempos, sem maleitas e sem problemas.

É por este estado a que chegou o SNS que, dias trás, foi constituído, em Coimbra, o Observatório de Saúde A. Arnaut. O filho, o advogado António Manuel Arnaut, com alguns médicos de todo o país, formatam-no e dão-lhe expressão.

E não querem muito, apenas o que o Estado tem, como dever, para com os seus concidadãos:

“contribuir para a defesa, modernização e sustentabilidade do SNS, entendido este como o pilar essencial da garantia constitucional do direito à saúde e do Estado Social”.