Coimbra  24 de Março de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Os armários da Igreja

25 de Fevereiro 2019

 

 

Papa Ferancisco

As instiuições, sejam elas laicas ou religiosas, devem e têm o dever de se adaptar aos tempos, ao homem e a tudo o que as envolva.

A Igreja Católica está a atravessar, por razão da atitude de alguns dos seus membros, um dos piores momentos da sua vida, como Instituição religiosa de séculos.

Os abusos sexuais, perpetrados por padres, bispos, freiras e outros servidores da causa de Deus, enxovalham e provocam escândalo. Tanto que alguns crentes abandonaram a Igreja católica, encaminhando-se para outras ou, pura e simplesmente, desertarem da esfera religiosa para não acreditar no Divino e nem em Santos ou Anjos.

Compreende-se esta decisão porque é difícil entender actos que mancham a vida da Instituição, especialmente quando são da grandeza e do espaço da sexualidade.

Mas a Igreja, a católica, colocou-se a jeito para que tenha de, agora, arcar com este peso e com todas as responsabilidades.

E aqui para nós, este Papa, o Francisco, teve a coragem de enfrentar esta questão sísmica que está a deixar brechas, qual terramoto que fez e faz estremecer toda a estrutura da Igreja. Não nos podemos esquecer que, e principalmente os dois antecessores – João Paulo II e Bento XVI – mas de forma diferente lidaram com este problema bombástico. Enquanto o primeiro tapou a situação, o segundo resignou.

Durante séculos, a Igreja usou e abusou da paciência dos que decidiram seguir-lhe os passos – tomando por boa fé as pessoas – da fraca instrução, da pobreza pessoal e espiritual dos fiéis, da humildade dos praticantes, da obediência ao clero e fechou-se nos Conventos, nos Seminários, nos Colégios, nas Casas Episcopais, nos Colégios, nas Residências dos Párocos e num ou noutro armário para não mostrar que estava nua nos seus Princípios, na sua Doutrina, na sua Génese, na sua Profissão de Fé, no seu Conteúdo, na sua Prática e nos seus Valores assentes nas leis da própria estrutura e nas que se escreveram na Bíblia. É certo que muito mudou. Os três últimos Papas pediram perdão pela moldura desumana da Santa Inquisição e por outras “travessuras”.

Mas o factor celibato é o cancro do problema. Não vivemos no tempo de Jesus Cristo nem tão-pouco nos primeiros séculos do Cristianismo. São passados XXI séculos. Muito tempo e muita transformação…

Vejamos. Celibato significa que a pessoa se mantêm solteira. Mas não quer dizer que não tenha relações sexuais ou possa amar outra pessoa.

Na Bíblia, e só para citar o apóstolo Paulo, encontramos o fundamento para que não sejamos vesgos a analisar esta premente quão complexa questão: em 1 Coríntios 7, “É bom para um homem não ter relações sexuais com uma mulher. Mas, devido à tentação de imoralidade sexual, cada homem deve ter a sua própria mulher e cada mulher seu próprio marido” (versículos 1-2); “Eu desejo que todos sejam como eu sou. Mas cada um tem o seu próprio dom de Deus, um de uma espécie e uma de outro. Para os solteiros e as viúvas digo que é bom para eles permanecer como eu sou. Mas se eles não podem exercer auto-controle, devem casar(…)”.

Digo eu: está aqui tudo e quase nada – posso, apesar de não ser teólogo, opinar.

“Se não devem ter auto-controle devem casar”. Está tudo reflectido neste pedacinho de escrita bíblica…

O problema tem sido a exigência do celibato, com consequências que todos conhecemos. Não só as que têm vindo a lume nestes últimos 20 anos, em relação a abusos sexuais, com relevo para a pedofilia, mas também quando os padres, apesar de se resguardarem, acabam por ter uma empregada que é “pau para toda a colher”, até para ter filhos…

Ao armazenar todos(as) quantos, dentro da Igreja, têm saído dos cânones sagrados ou sacramentais arregimentados pelas leis e pela organização da própria Instituição, promoveu-se, durante séculos, a impunidade de centenas e centenas de clérigos que se satisfizeram, e sexualmente, com crianças. Se adultos a gravidade não será alguma, apesar da imposição, aos padres, bispos e cardeais e, ainda, a freiras ou irmãos de Congregações, do celibato. Só estarão em pecado no seio da Instituição que servem e no desrespeito pelas normas internas. Mas atrás das cortinas não se vê o fumo…

Sem defender o que não tem qualquer sustentabilidade humana, social, moral ou religiosa, quero deixar explícito que um padre como outro membro do clero é um homem ou mulher, com todos os seus defeitos ou virtudes, como o comum dos mortais. É evidente que, e pelo seu cargo/missão, terá de, e pelo menos, saber travar ímpetos de toda a espécie, principalmente os que podem molestar, no domínio sexual, menores de idade. Se os padres e outros membros da igreja casassem, estariam mais preparados para a vida, percebendo-a melhor.

Este passo do Papa Francisco, mesmo que não seja o que se poderia esperar, é um sinal de que ele, apesar de sabermos que não é bem quisto por fatias da própria Igreja, pelo desassombro das suas palavras e atitudes, não pretende continuar a deixar que uns, os da Igreja que serve e de que é o maior Dignitário, se escondam nos armários da Instituição para se protegerem e não serem julgados pelas leis civis, as que, aliás, todos devemos obediência.

Uma coisa é a lei divina, para os que acreditam; outra é a dos homens. A Igreja precisa de rever a forma como se apresenta na terra, perante os homens e o tempo, no que vive…