Coimbra  21 de Março de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Costa Almeida

Até sempre, António Arnaut!

22 de Maio 2018

(*) Cirurgião e professor universitário

Habituei-me a ouvir o nome de António Arnaut, agora falecido, desde o começo da minha carreira como especialista, desde o início do Serviço Nacional de Saúde e ao longo dos anos que ele tem.
Mas uma coisa é ouvir falar do ministro que criou as bases para revolucionar a assistência médica em Portugal, ou do político defensor das suas causas e do que na sua óptica considerava justo e mais adequado à sociedade que ele procurava moldar, ou do advogado eloquente, ou do poeta que ele era, outra foi conhecê-lo pessoalmente.
Tive o privilégio de conversar com ele, ser comensal à mesma mesa, trocarmos ideias sobre grandes e pequenas coisas, ao longo de viagens em conjunto, participar em debates em que ele também intervinha, ter a honra de o ver apresentar um livro escrito por mim, sobre, naturalmente, a Saúde, o SNS, as carreiras médicas, um assunto que desde cedo, e acidentalmente, o tomou na sua vida política activa e que, mesmo depois dela, nunca mais abandonou.
Foi ao conviver com António Arnaut, ao tê-lo como amigo, que pude testemunhar os seus modos afáveis, mesmo para aqueles com quem não concordava, mas mantendo a segurança das suas ideias, sem fazer cedências, nem sequer de circunstância, àquilo em que acreditava e por que se batia com denodo e persistência. Possuía simplicidade de modos e de estar, mas prendia todos os que com ele falavam ou apenas o ouviam.
Recordo o seu espírito de humor arguto, a atenção que prestava a tudo o que o rodeava, a sua confiança no que sabia, sem deixar de aprender e sem perder a capacidade de se surpreender e entusiasmar com o que de novo lhe aparecia, a sua vontade de melhorar constantemente, a sua alegria de viver e de ter vivido, contagiante.
Foi um privilégio conhecê-lo. Para além da obra a que deu origem, para além daquilo que neste pais representou, para além daquilo que realizou. É, sem dúvida, daquelas pessoas que gostaríamos sempre de encontrar outra vez.