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Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

A questão é desportiva e criminal… mas é sobretudo política

29 de Maio 2018

Para quem jogou futebol e se mantém orgulhosamente fiel ao tempo que lhe dedicou, esta situação, que aconteceu com os jogadores do Sporting, arrepia, emociona até. Não passava pela cabeça de ninguém que a barbárie levasse energúmenos a agredir os jogadores, sobretudo dentro do balneário.

O balneário é um espaço sagrado, intocável, é o “lar”, a casa desportiva dos jogadores. O próprio treinador tem o seu gabinete, bem como o restante ‘staff’.

Aquele espaço é único, cheio de intimismo, de frustrações e emoções, de dor e alegria.

Aconteceu o que aconteceu na Academia do Sporting e até se pode dizer que não se fala de outra coisa em Portugal.

Não admira. O futebol foi o maior fenómeno de massas do século. XX e vai continuar na liderança no século XXI.

Tudo o que nele acontece tem repercussões à escala planetária.

Por isso, vêm-nos à memória a morte de 31 adeptos da Juventus, da Itália, no Estádio de Heysel, em Bruxelas, na Bélgica, num jogo da Champions com o Liverpool, em 1985.

E nada aconteceu por acaso.

Os hooligans eram notícia frequente pelo medo, desordem, terror e violência que provocavam nas ruas e nos campos de futebol.

A questão era desportiva? Era. A questão era criminal? Era. Mas era sobretudo política.

Ora, a então primeira-ministra inglesa, Margaret Thacher, não assobiou para o lado e vai de dar sinais de que as coisas se não iam a bem iriam a mal: mandou pôr grades pontiagudas, electrificadas e com arame farpado nas zonas que, nos estádios, estavam destinadas a esses vândalos. – terraces.

Tudo isto, também, a reboque da grande tragédia de 1989, quando na semi-final de 1989 da Taça de Inglaterra, morreram 96 pessoas por esmagamento nas entradas do Estádio de Hillsborough.

Mas também criou e pôs em execução uma política de prevenção de violência no desporto.

Depois houve mais medidas visando a identificação dos desordeiros, previamente.

Criaram-se, em todos os estádios, sistemas de monitorização por câmaras, para identificar esses desordeiros e e expulsá-los durante os jogos.

Criaram-se ainda ‘experts’ na polícia sobre o comportamento dos adeptos de cada clube profissional, para informar a corporação acerca dos que são potencialmente perigosos.

Passou-se, neste contexto, à efectiva aplicação da lei com detenções em grande número. Por exemplo, na época 2012/2013 houve 2 456 prisões.

A maioria dessas detenções levaram a ordens de banimento do futebol (FBO, em inglês).

Quem for apanhado em desordens dentro dos estádios recebe um FBO e pode ficar de três a 10 anos longe dos estádios, sendo obrigado a ir para uma esquadra enquanto o seu clube estiver a jogar.

Mas foi mais longe: quando a seleccção de Inglaterra jogar fora do país, esses vândalos têm de entregar o passaporte cinco dias antes dos jogos. Quem se esquecer é preso e processado.

A Alemanha e a Espanha seguiram, de perto, este exemplo com bons resultados.

Por cá o que temos, mesmo depois da “casa roubada”?

Apenas declarações pífias de dois secretários de Estado, com o passo trocado em relação às exigências do momento, a fazerem declarações que melhor cabiam ao intendente da PSP sobre a medida do risco da final da Taça e quejandos.

De substancial nada, nada…

Não basta o blá blá, é preciso, para além da condenação deste terrorismo desportivo, ir mais longe e usar bem o que temos, cumprindo as leis já existentes sobre a violência no desporto e no combate ás acções criminosas. De forma exemplar, enquanto não há outras decisões que urge tomar.

É que a questão é essencialmente política.

Não há dúvidas.

(*) Ex-jogador da Académica