Coimbra  21 de Março de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Sansão Coelho

A entranhada solidariedade da malta dos jornais

18 de Janeiro 2019

A CASA DOS POBRES DE COIMBRA não terá nascido de um dia para o outro e a sua criação simbólica em 1935 advém, no meu ponto de vista, de uma situação trágica ocorrida em 1918/1919. Refiro-me à gripe “espanhola” (porque nos entrou pela fronteira alentejana proveniente de Espanha) mais tarde denominada “pneumónica” e ceifou, ao longo daqueles dois anos, a vida de muitos conimbricenses com a classe operária e os mais desfavorecidos a ficarem em situação penosa. Foi uma tragédia que Coimbra não assume sem rubor (a fome que aqui se passou!!! – envergonhar-nos-íamos?) e os historiadores quase não detalharam.

Ainda agora para este breve artigo recorri a um ensaio recente de Ana Maria Diamantino Correia com o título “ A resposta em Coimbra à epidemia da pnumónica de 1918/1919 sob o olhar de um periódico local”. O jornal que foi lastro para o estudo é a “Gazeta de Coimbra” fundada pelo avô da minha mulher, o jornalista João Ribeiro Arrobas. Ao longo desta epidemia que assolou Coimbra de forma tenebrosa, e perante uma indescritível indiferença – na fase inicial – das instituições da cidade como Câmara, Universidade e Governo Civil, entre outras, o jornal “Gazeta de Coimbra” – à época a publicação principal da cidade e região – alertava para a indiferença das entidades perante a pandemia. A minha sogra devia ter seis ou sete anos quando assistiu a este surto e relatava-me que chegaram a enterrar as pessoas vivas que depois eram encontradas com os corpos revolvidos na terra denotando que procuraram deixar as térreas sepulturas. Foi um flagelo de dimensões humanas catastróficas pela falta de medicamentos e de higiene e porque muitos médicos tinham sido recrutados para a Guerra e, aliás, quintanistas de medicina estiveram no terreno a ajudar a população com mais dificuldade.

Habitantes abastados deixaram a cidade e instalaram-se em áreas aparentemente protegidas da epidemia. Para além de Coimbra, na região, Lousã, Góis, Figueira, Penela e Condeixa foram das mais afectadas. Centenas e centenas de mortos. Após o flagelo prolongou-se a miséria e um panorama elevado de carência económica e de mendicidade que motivou a criação, anos mais tarde, da CASA DOS POBRES DE COIMBRA. A instituição, nessa altura sob a égide do Comando da Polícia e das entidades proeminentes da urbe, fica então a funcionar em instalações cedidas pelo Município no Pátio da Inquisição onde tiveram sede os jornais “Gazeta de Coimbra” e “O Despertar” que sempre reclamaram apoio para a população faminta, mendicante, resultante da pneumónica e dos efeitos da Guerra…e para os pobres. Aos jornais, e em concreto a “Gazeta de Coimbra”, não lhes bastou relatarem os factos desta tragédia pois alguns jornalistas como o caso de João Ribeiro Arrobas tiveram de arregaçar as mangas e sair da tipografia e da redacção para colaborarem na procura de soluções para a pobreza e na constituição, anos depois, da CASA DOS POBRES DE COIMBRA.

Hoje, a CASA DOS POBRES (onde se continuam a ver fotos dos que com ela colaboraram na direcção e no seu arranque) tem novas instalações em S. Martinho do Bispo pelas quais muito lutou de forma abnegada o saudoso Aníbal Duarte de Almeida, grande amigo dos jornalistas com os quais chegou a promover convívios regulares que ganharam fama cá pela praça. E pela CASA DOS POBRES DE COIMBRA passou também, entre outras, a mão dirigente solidária e activista do engenheiro Augusto Correia, ligado a Penela e indirectamente a Miranda, e que pelos cargos ocupados e proximidade com as populações conheceu as dificuldades que a pobreza manifestava, iniludivelmente, nestas paragens ao lado de Coimbra.

Mais recentemente, no meu ano de presidência rotária no Rotary Club de Coimbra, consegui activar um processo que estava congelado porque o Rotary Internacional trabalha ao rigor do milímetro (e do cêntimo) e o nosso bom amigo Aníbal Duarte de Almeida resolveu ampliar a cozinha das novas instalações da CASA DOS POBRES, em São Martinho do Bispo.

Ora, os rotários de Coimbra tinham conseguido dois clubes europeus para serem parceiros no equipamento total da cozinha do novo edifício e tudo estava aprovado conforme projecto inicial até que a súbita alteração das dimensões da cozinha levou ao bloqueio da atribuição das verbas. Foi o Coronel Cerca da Silva, quem em exercícios musculados e bem documentado no plano rotário conseguiu desbloquear todo o processo de candidatura e apoio e foi possível garantir a ampliada cozinha. Mas razão tinha o Sr. Aníbal: é preciso sempre mais e melhor para promover a dignidade humana.

Há nestes novos tempos mais pessoas a precisarem da CASA DOS POBRES e, por coincidência, chega-me um apelo urgente do Dr. Lino Vinhal, jornalista de causas e líder do Grupo Media Centro, a sugerir-me que escreva um artigo para os seus jornais a sensibilizar a comunidade para apoiar a ampliação das instalações da CASA DOS POBRES DE COIMBRA porque é preciso contribuir “para o bem-estar dos mais desfavorecidos”.

Curioso porque é com casas como esta CASA DOS POBRES que, provavelmente, conseguiremos acabar com a pobreza. Como notam os leitores, isto de solidariedade é algo que está muito entranhado na malta dos jornais. E quando não a conseguimos praticar falamos, escrevemos e sensibilizamos acerca da sua prática.

Mediamos solidariedade.

– Senhora Presidente, Dr.ª Maria Luísa: isto entrou-nos cá por casa como uma história de vida, de família, histórias de gente de Coimbra e da nossa região que perdeu a vida e de outras vidas que não se perderam porque ficou impresso no Pátio da Inquisição o valor da amizade e da fraternidade. Em nome dos Arrobas, dos Aníbal de Almeida, dos Correias e de outros tantos que não são agora mencionados, mas sempre incluídos em espírito como aquela plêiade de ‘Românticos’, e em nome de todos nós que somos desta família coimbrã e beirã, queremos manifestar que vamos vestir no imediato coletes brancos, símbolos de paz e do trabalhar pelo bem público, para montar os andaimes e carregar os tijolos, a argamassa e o ferro necessários para ampliar a nossa CASA DOS POBRES.

E se precisar que se abra um microfone ou uma coluna de jornal para pedir a toda a população que ajude a tarefa da actual direcção no ampliar das instalações, conte connosco…nem precisa de nos chamar porque conhecemos o caminho para ir para aí.

Quando? Já hoje?