Coimbra  22 de Abril de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Estudo da UC revela elevada necessidade de cuidados paliativos no país

24 de Janeiro 2018

As investigadoras Bárbara Gomes e Ana Lacerda

 

Uma investigação, liderada pela docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), Bárbara Gomes, revela que existe, em Portugal, uma elevada necessidade de cuidados paliativos, quer para adultos como para crianças.

No país, “71 por cento das mortes de adultos e 33 por cento das mortes de crianças devem-se a doenças que necessitam reconhecidamente de cuidados paliativos. Estas estimativas equiparam-se às de outros países europeus, mas carecem de capacidade de resposta, sobretudo para crianças”, esclarece, hoje, a UC.

Nesta investigação observou-se que “é urgente avaliar a sustentabilidade do modelo actual de cuidados de saúde e apoio social para acomodar estas necessidades, que só tendem a crescer. O cancro é responsável por uma parte cada vez maior das mortes com necessidades paliativas (34 por cento nos adultos e 38 por cento nas crianças)”, adianta.

A equipa de investigadores salienta, também, “o aumento de mortalidade por doenças respiratórias e neurodegenerativas nos adultos e as áreas da pediatria com o maior número de crianças com doenças crónicas complexas – a neonatologia, cardiologia e neurologia, para além da oncologia”.

O estudo analisou dados de mais de um milhão de pessoas falecidas em Portugal entre 1987 e 2012, cruzando as perspectivas de especialistas em saúde pública, cuidados paliativos e pediatria, para melhor entender a realidade portuguesa.

“Encontrámos duas características-chave que definem a forma como a sociedade portuguesa lida com doenças avançadas e o fim de vida. Por um lado há uma tradição de apoio familiar alargado – tentamos cuidar dos nossos em casa, uma missão que é muito associada às mulheres na família. Por outro lado somos extremamente dependentes dos hospitais – achamos que lá vamos encontrar os melhores cuidados de saúde”, explica a investigadora Bárbara Gomes.

Este “modelo dual” de cuidados, salienta a docente da FMUC, “leva a que tenhamos uma das mais altas taxas de morte hospitalar do mundo, sobretudo em idades mais jovens e no cancro. Vivemos num sistema ‘hospitalocêntrico’ difícil de sustentar no futuro”, sublinha, adiantando que é necessário perceber que “os cuidados devem girar em torno dos doentes e das famílias, e não o contrário” e, com isso, “repensar e criar novas soluções”.

Os investigadores alertam, ainda, para o aumento de longevidade, que prolonga a necessidade de cuidados de meses para anos. Nas crianças, a idade mediana de morte aumentou de seis meses em 1987 para quatro anos de idade em 2011, devido sobretudo à redução de mortes de recém-nascidos e aumento de mortes na adolescência, confirmando que “as crianças com necessidades paliativas estão a viver mais tempo e oito em cada 10 morre em contexto hospitalar”, realça Ana Lacerda, médica pediatra no IPO Lisboa. Para a especialista, este facto só pode ser revertido através do investimento “na criação de serviços de cuidados paliativos pediátricos, com forte apoio domiciliário, que acompanhem as crianças e famílias durante toda a sua trajectória de vida”.

A investigação, já publicada nas revistas “Palliative Medicine” e “BMC Pediatrics”, foi financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, e envolveu médicos e investigadores da FMUC; do Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Faculdade de Economia da UC; do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto; da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa; do Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil – Lisboa; do Hospital Espírito Santo de Évora; e também do King’s College London (Inglaterra).