Coimbra  21 de Abril de 2019 | Director: Lino Vinhal

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António Barreiros

Valdemar Caldeira: a figura conimbricense da humildade

12 de Abril 2019

 

Valdemar Caldeira

A notícia chegou-me e não tardou nada estava a circular por se tratar de uma figura singular e ímpar de Coimbra.

Faleceu Valdemar Caldeira, o engenheiro e o professor universitário (apenas assistente e por pouco tempo em 69).

Disse-me, um dia, “nunca tive vocação para aquilo, para a Universidade. Dediquei-me a dar explicações a alunos carenciados”.

Era dos Olivais. Filho único. De gente abastada.

Estudou Engenharia Química Industrial nas Universidades de Coimbra e do Porto. Nesta última, acabou por se formar.

Os pais deixaram-lhe tudo. Foi gerindo para sobreviver.

Homem de missa dominical, vinha da zona do Campo do Bolão, onde residia, faz alguns anos, até à Sé Nova. Também frequentou comigo, na Igreja de Na Sra. de Lourdes, os catecúmenos. Apresentava-se regularmente a esses encontros.

Encontrei-o, deve estar a fazer uns dois anos, na descida do Hospital Novo a caminho da Casa do Sal. Destinava-se a casa, ao seu Campo do Bolão. Como eu conduzia na faixa contrária – ele circulava a pé e, portanto, descia na que os carros subiam – fui dar a volta à rotunda da Fucoli e vim em direcção a ele. Parei. Abri o vidro e acenei. Cumprimentou-me.

Vai para casa Valdemar – perguntei. “É verdade, meu caro amigo” – respondeu.

Quer uma boleiazinha ? – atirei.

“Nada disso. Faz-me bem este caminho de pernas e de tempos para ir vaporizando as ideias” – comentou.

“Olhe lá, anda com dois casacos? E não anda nada bem com eles… estão amachucados e rotos. Um dia destes vou trazer-lhe um” – informei-o.

“Não se incomode… para mim servem e para o que tenho de palmilhar – já não deve ser por muito tempo – chegam e sobram” – não se esperou.

Enquanto isso, e por estar parado numa das vias de circulação, um ou outro condutor buzinava. Não sei se para me “criticar” pelo estacionamento indevido se para saudar o Caldeira, o engenheiro e o professor, como era conhecido.

Atrevo-me a dizer que seria pelo segundo motivo, era figura reconhecida e estimada.

Lá me despedi. Mas retirei-me do carro para, como ele o merecia e para se sentir saudado e, também lhe mostrar o meu afecto de amizade, o abraçar.

Dei a volta, cá em cima, regressando ao meu percurso de volta a casa. Passei, e de novo por ele, apitando. Levantou a mão e sorriu.

Nunca mais o vi, desde então. Ia lendo umas notícias que o deram, e uma das vezes, como internado nos CHUC.

Agora leio o seu falecimento.

Entristece-me esta notícia por o conhecer, faz tempo; por o admirar como pessoa; por perceber o seu sentido de vida, como Homem. Curvo-me perante a o seu modo de vida.

Paz à sua alma. Foi um servidor, à sua maneira, elevando a humildade e a simplicidade, com que se apresentava, da mensagem salvífica, de paz e de amor ao próximo do Deus em que acreditava. Até um destes dias, caro e amigo Valdemar Caldeira, o do encontro das nossas almas.

Obrigado por tudo e por ter sido meu amigo.