Coimbra  17 de Dezembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Um país cor de rosa, um laranjal doente

4 de Outubro 2017

Toda e qualquer análise política que se queira fazer das eleições autárquicas mostra à evidência que o país é hoje um imenso mar cor de rosa, bem distante dos anos 90, quando se tingia a traços laranjas. A nível de Portugal continental só três distritos fogem à regra (Aveiro e Guarda com maioria de câmaras PSD e Setúbal, com a CDU).

Nos totais nacionais 38 por cento do eleitorado votou no PS correspondendo a 1 950.576 votos, enquanto a segunda força política, o PSD representa hoje menos de metade daqueles valores com 16, 1 por cento ou 825 007 votos, a que se podem associar as coligações, que valeram 8,7 por cento (448 438 votos).

A estes dados podemos ainda adicionar os 9,5 por cento do PCP e os 3,3 por cento do BE, que ajudam a consolidar a maioria ideológica de esquerda que há muito se definiu em Portugal.

Muitas causas concorreram para esta situação: a má gestão do processo ‘troika’ ou a liderança fraca e opaca de Passos Coelho, as lutas internas e as dissensões que vieram beneficiar os Movimentos ou Grupos de Cidadãos. Ao PSD só resta, assim, um caminho: a refundação ideológica, o regresso aos tempos pré-Passos, ocupando o espaço que sempre foi seu, do centro-direita.

Em Coimbra o PS ficou à beira da maioria absoluta, o que de modo algum parece traduzir o que se foi ouvindo nos espaços de sociabilidade. Provavelmente a máquina estaria bem oleada, as tropas bem preparadas, a estratégia política desenhada e discutida atempadamente.

O PSD em coligação não caiu completamente mas ajoelhou, pondo fim à tradição política de que quando PSD e CDS se juntavam ganhavam a CMC. Agora, coligados ou não, vão ter de trabalhar muito se quiserem reerguer-se. No caso do PSD, que conheço melhor, têm óptimos quadros, alguns desperdiçados e esquecidos. Há que aproveitar essa massa crítica.

É por demais evidente que se cometeram alguns erros de palmatória: deixar escapar a ala conservadora e tradicional para o “Somos Coimbra” ou a afirmação de um discurso voltado para a região esquecendo o município foram, a meu ver, fatais. Gorada a tentativa de reconquista do Município com recuo do poder das freguesias laranja aguarda-se com expectativa um novo tempo que será, provavelmente, o momento mais importante e decisivo da história do partido, não só a nível local mas também regional e nacional. Creio, em qualquer das situações, que só lá irá com união, experiência e abertura à sociedade, nunca esquecendo (ao contrário do PS e CDU) que é nas bases (freguesias), que reside a força elementar de todo o processo.

Desejo a todos os autarcas eleitos felicidades para o ciclo 2017-2021. No campo cultural, em particular, e numa região tão rica como a nossa, tenho esperança que as autarquias dinamizem e promovam eventos históricos perenes e não se deixem levar pelo efémero.

Parabéns a todos os que votaram fazendo descer os níveis de abstenção, inimigo número um da Democracia.

Glória aos Vencedores, Honra aos Vencidos.

Viva a República!

(*) Historiador e Investigador