Coimbra  17 de Janeiro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Sementes de Cultura: Figuras de outros tempos – António das Almas

10 de Janeiro 2019

Largo de Sansão

Largo de Sansão (hoje praça de 08 de Maio)

 

Esta figura, que viveu entre o séc. XIX e o XX, foi descrita por Mário Monteiro no seu livro datado de 1908 e intitulado «Typos de Coimbra».

António das Almas era um pândego e patusco, amigo dos estudantes que lhe pagavam as refeições. Morava para a zona de Montarroio e diz-se que tinha qualidades de pregador, sendo raro o dia que não pregava um sermão por um motivo qualquer.

Embora pregasse em todo o lado e a qualquer hora, gostava de o fazer, em especial, no largo de Sansão, num pilar de pedra encaixado na parede da casa que hoje faz esquina entre a rua do Corvo e a da Louça.

Daquele espaço fazia o seu púlpito irrompendo nestes termos:

«Eu sou o António das Almas. As mulheres são como as cabras que andam pelos outeiros. De Cellas nem elles nem ellas…». E ali estava, recomeçando a lengalenga até conquistar um cigarro, umas calças, um colete, as moedas. Na festa das latas era outro momento em que a sua presença mais se fazia notar.

O estudioso e bibliotecário Borges de Figueiredo refere-o na obra Coimbra Antiga e Moderna, de 1886, de confirmando-o como um tipo popular, proletário, «mais manhoso do que tolo», próximo ao meio estudantil, extravagante e hábil contador de anedotas:

«D’uma vez alguns estudantes o convidaram a pregar um sermão, coisa que elle frequentemente fazia, com grande gaudio da rapaziada.

– Sim, senhores, disse maliciosamente o mendigo, com todo o gosto. Mas o pior é que não trouxe a papeleta, e falta-me o tema.

Os estudantes riram e, para o divertimento continuar, deram-lhe um pedaço de papel em branco. O António das Almas pegou nelle, subiu a um frade de pedra [pilar ou marco de pedra, quase sempre e forma redonda, fixado no chão para impedir a passagem de veículos, amparar o cunhal de uma casa ou amarrar as rédeas dos animas] que estava próximo, disse o per signum crucis, e, examinando d’um e outro lado o papel, exordiou d’esta maneira, com uma seriedade, que o próprio Patagónia e muitos outros oradores de certo invejariam:

– D’este lado, nada; d’este, também nada. De nada se fez Deus o mundo, e isso será o objecto do meu sermão.

E prosseguiu, fazendo estalar de riso os seus ouvintes»…

(*) Historiador e investigador

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