Coimbra  16 de Agosto de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Sapadores de Coimbra: Desleixo municipal é impressionante

11 de Maio 2018

Tenho, por consciência, por ser de Coimbra, por me ter apegado ao laborioso trabalho dos bombeiros desde tenra idade, por lhes perceber o lema “Vida por Vida” e por saber que a maioria deles, os nossos soldados da paz, é gente abnegada, altruísta, solidária, lutadora, de sentimentos, de raízes no melhor do nosso povo e comprometida com a nobre tarefa que lhes incumbe – dizia – tenho de denunciar a actual situação que se vive na Companhia de Sapadores Bombeiros (CBS) de Coimbra.

Para isso, falei com anteriores comandantes e ex-bombeiros que ali prestaram o seu serviço profissional, bem como com técnicos da área que percebem e sabem o que se passa dentro das paredes do quartel.

Mas vamos aos factos e à realidade que, actualmente, não dignifica a CBS de Coimbra, tentando trazer aqui as principais questões que abanam e desclassificam aquela estrutura de Protecção Civil Municipal.

Não existem promoções, no respectivo quadro, desde 2009, o que acaba por despromover as funções dos que têm de desempenhar cargos de categorias superiores sem a devida correspondência legal e, também, na carteira. Para se ter uma noção do que digo, só existem sub-chefes.

De referenciar que o quadro de pessoal está nos mínimos possíveis de funcionamento de uma Companhia que tem por missão zelar por mais de 200 000 pessoas no concelho de Coimbra. Tem, apenas e só, 94 bombeiros, quando devia estar no patamar dos 146 homens. Um número que não chega para nada. Um piquete acaba por ter, contando com baixas médicas e pessoal arrastado para serviços camarários, uns 16 bombeiros, o que corresponde a uma desgraça, tendo em conta toda a envolvência de situações reais que possam acontecer. E no sector dos mergulhadores, de que recordo o bombeiro Tejo, o qual deu um forte incremento a essa área, um orgulho da CBS, as coisas vão de mau a pior.

Mais grave, e neste particular, o facto de a última recruta para meter gente nova e renovar e aumentar o quadro de pessoal, remontar a 2002/3. Isto é, já lá vão mais de 15 anos. Será aceitável ? E vejam só: a idade média do corpo de bombeiros da CBS anda na casa dos 40 a 42 anos…

Veio na passada semana o sr. presidente da Câmara dar um rebuçadinho: entregou fardamentos novos e equipamento de protecção pessoal. Tudo bem. Fica por fazer o essencial e o mais importante, caro autarca Manuel Machado e vereador do pelouro, como bem sabem.

Mas prosseguindo com a saga CBS: consabido que o SIRESP é uma miragem, a nível de comunicações, também, e em Coimbra, o é. Na maior parte da mancha urbana não funciona. Nem dentro do edifício-sede do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. E já que falamos de comunicações, para quando uma Central Municipal de Operações de Socorro para melhor se coordenar e prestar essa função?

E que dizer da única auto-escada da Companhia que já tem 18 anos, uma Camiva sob chassi Iveco, a qual nem tem capacidade para sistema de água (limitações várias), acabando por ser um meio de salvamento e nunca de ataque ao fogo? E gravíssimo: os equipamentos da VPME – Viatura de Protecção Multiriscos Especial (matérias perigosas) – que só existem quatro no país, nunca foram substituídos, desde a sua aquisição, em 1998. Para cúmulo a ambulância do INEM acusa constantes paragens por falta de oxigénio para os doentes e/ou acidentados.

Segundo soube, a Assembleia Municipal de Coimbra acaba de aprovar o Regulamento Interno para a CBS, esperando-se que o mesmo possa ser implementado o mais breve quanto possível, rejuvenescendo o ar irrespirável que se concentra nas casernas e na parada desta antiga, emblemática e prestigiada Unidade de Socorro de Coimbra.

E, por último, um recado: o actual comandante tem de saber ouvir. Tem de saber levar ao poder autárquico as questões, caso contrário ficará como um coveiro da CBS. Um comandante responde pelos seus homens, mas deve tentar defender a instituição e os seus subordinados. Essa é a sua peculiar atitude.

Sente-se e pressente mau estar, dentro das instalações. Avalia-se desmotivação nos homens, na sua esmagadora maioria. Uma corporação com mais de 235 anos não merece este trato, por banda do Município. A oposição, com assento nas sessões camarárias, tem o dever de questionar o vereador do pelouro que – como verifiquei em muitos diálogos mantidos com pessoas que o conhecem – terá ficado insatisfeito com a actuação do comandante, aquando de uma última reunião mantida com sub-chefes, donde saiu mal-estar.

Não poderia deixar de explicitar, em conformidade com o levantamento que efectuei, a falta de estratégia, de orientações e de planeamento dos actuais responsáveis por sector tão vital para a segurança e protecção dos conimbricenses e das suas diversas estruturas, além do desinvestimento que se nota por banda da falange Política Municipal, a que se pode somar uma outra causa, a de nunca terem conseguido, pelo menos nos últimos 12 anos, resolver o problema da estrutura de Estado Maior de apoio ao Comando, o que compromete seriamente a manobra diária da CBS, agravando, e ainda mais, os inúmeros problemas com que já se debate. E a mesma oposição, a que não é submissa, tem o dever de, também, visitar a CBS e tentar fazer um levantamento criterioso dos problemas para que a confiança se instale.

Um destes dias, se a nossa Rainha Santa Isabel adormecer, teremos uma má notícia por falta de material e de meios humanos. Não podemos esquecer-nos dos laboratórios universitários, das várias unidades de saúde, dos transportes rodoviários com matérias inflamáveis e outras que cruzam as estradas do concelho e, ainda, da principal ferrovia do país, onde circula o Alfa, o Intercidades e os regionais. Tudo potenciais focos de alerta e de um caso de acidente ou incidente, a precisar de uma actuação eficaz em número de homens e de equipamentos para obstar a qualquer catástrofe. Os incêndios do Verão passado ficam como um alerta horrível e grosseiro do ponto de vista da Protecção Civil.