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Semanário no Papel - Diário Online

 

Rui Avelar

Santana / Sócrates: Ironia do(s) destino(s)

11 de Outubro 2017

Pedro Santana Lopes e José Sócrates perfilaram-se, em 2005, para a legitimação democrática da chefia do XVII Governo. Por ironia do(s) destinos(s), um está na mó de cima e outro na de baixo.
Lopes (PSD) chegou às eleições legislativas de 2005 «ferido na asa», volvidos escassos meses de governação, Sócrates (PS) fazia alarde da autoproclamada condição de “animal feroz”.
Recuemos a 2004, quando Pedro foi chamado a substituir José Manuel no cargo de primeiro-ministro, a fim de Durão Barroso rumar a Bruxelas e assumir a presidência da Comissão Europeia.  No mesmo ano, José Sócrates ascendeu a secretário-geral do PS em detrimento de Manuel Alegre.
Na Presidência da República encontrava-se, então, Jorge Sampaio, cuja afinidade (conhecida) com Santana Lopes assentava no fervor sportinguista de que ambos comungam.
A decisão presidencial de indigitar Pedro para chefiar o XVI Executivo não era (nem é) questão de somenos. Di-lo o autor destas linhas com o respaldo de sempre ter considerado preferível, em meados de 2004, a convocação de eleições legislativas antecipadas, por maioria de razão tendo presente que, sob a liderança de Ferro Rodrigues, o PS acabara de triunfar em eleições para o Parlamento Europeu.
Sócrates ganhou as legislativas de 2005, embora nem chegasse a disputá-las se Sampaio tivesse dissolvido a Assembleia da República, mas, em 2011, acabou por ser forçado a renunciar ao cargo de primeiro-ministro.
Por coincidência, volvidos 12 anos e meio, Pedro Santa Lopes está na rampa de lançamento capaz de o catapultar para timoneiro do XXII Governo e, ao invés, José Sócrates enfrenta uma imputação de cometimento de 31 crimes, proferida pela entidade titular da acção penal (Ministério Público).
Porventura, a História poderia ter sido bem diferente se, há 13 anos, Jorge Sampaio tivesse devolvido a palavra ao povo, detentor da soberania.
Pondo de parte juízos de valor, uma coisa é certa: a convocação de eleições legislativas antecipadas teria sido protagonizada por Eduardo Ferro Rodrigues. Com isso, Portugal teria sido poupado à humilhação de assistir à imputação de 31 crimes a um ex-primeiro-ministro.
Diga-se, em abono da verdade, que José Sócrates é presumivelmente inocente. Porém, convenhamos tratar-se de fraco consolo.