Coimbra  20 de Junho de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Rumo sociológico e urbanístico das cidades e a crise do associativismo

12 de Abril 2018

 

17 - João Pinho Debate ACM

A evolução da cidade em debate, no salão nobre da ACM, com Elísio Estanque, Lusitano dos Santos e Pedro Bingre

 

A Associação Cristã da Mocidade de Coimbra continua a cumprir o seu programa de centenário. No passado dia 05 acolheu, pelas 21h30, um debate subordinado à temática «A Evolução da Sociedade Urbana», moderado pelo engenheiro civil jubilado Lusitano dos Santos, tendo como oradores o sociólogo Elísio Estanque e o especialista em planeamento regional e urbano Pedro Bingre.

A cidade de Coimbra, dada como exemplo, foi analisada por diferentes prismas e enquadrada num contexto global em que o individualismo ganha terreno ao colectivo e em que a comunidade tem perdido identidade. A este propósito, Estanque recordou uma tendência marcante nos bairros sociais: «nos nossos é mais difícil sociabilizar no largo, na rua, devido a novas formas de (des)sociabilização, designadamente, com as redes sociais».

Este estudioso recordou, também, como o associativismo se desenvolveu no princípio do século XX «…afirmando-se como resposta à perda da realidade da comunidade colectiva em favor do individualismo», de que foram exemplos o mutualismo, as sociedades filantrópicas ou o sindicalismo, vincando a necessidade «… de uma nova visão governativa, maior visão estratégica, abertura cultural e menos visão contabilística».

Pedro Bingre recordaria o peso da lei de 29.11.1965 que veio permitir o zonamento urbanístico, «…privatizando o direito de urbanizar, dando origem à especulação». Um momento decisivo para que as cidades, em Portugal, perdessem as suas características clássicas, particularmente, o espaço da rua «…multifuncional, onde se vivia, dormia, trabalhava, descansava e divertia». A partir daquela legislação a administração pública perderia o controlo do crescimento urbano: «deixámos de ter bairros e passámos a ter urbanizações ao gosto dos seus promotores, perdendo-se a vida da rua, dando-se uma machadada na convivialidade. Em Coimbra, por exemplo, o centro histórico esvaziou-se, a ‘baixinha’ desertificou-se, tendência intensificada pela acção de outros factores, como a fiscalidade, regime jurídico, direito sucessório, partilhas…».

Os oradores convidados concordariam, em síntese, na necessidade de mudanças sociológicas que coloquem travão ao neo-liberalismo e ao hiperindividualismo que se vem acentuando desde os anos 80, lançando muitos jovens para a satisfação das necessidades básicas e conduzindo à precariedade do mercado de trabalho.

No espaço aberto ao debate com a assistência, Fausto Carvalho, presidente da Direcção da ACM de Coimbra, desafiou os presentes a abordarem o revitalizar do associativismo, designadamente, o da ACM-Coimbra, marcante à data da fundação da instituição, em 1918: «Há que repensar a sua filosofia, valores, princípios e práticas, sendo 2018 o ano do centenário, um ponto-chave. Será que depois do registo histórico feito vamos continuar? Vamos alterar?».

Pertença e partilha

A este propósito, Elísio Estanque assinalou que é preciso dar continuidade, aproveitando a juventude: «O associativismo pressupõe a coesão do grupo, sentido de pertença e partilha – fundamental para a sobrevivência da democracia. É preciso criar uma rede interligando várias instituições que consiga travar a tendência dos movimentos estudantis actuais, caracterizados pelo crescimento do individualismo e onde é muito difícil mobilizar para as causas que lhes dizem respeito – actos eleitorais, secções, cidadania, cultura».

Pedro Bingre recordou que a ACM, como outras associações, enfrenta, na actualidade, uma realidade bem diferente da que se vivia aquando da fundação: «…sociedade envelhecida, crise do cristianismo e o recuo demográfico», deixando como sugestão para a revitalização do espírito acemista de Coimbra, a aposta no «colectivo-afectivo baseado no biológico, inato ao ser humano».

O moderador, professor Lusitano dos Santos, expôs nesta altura o seu pensamento: «Tenho fé na juventude. A sociedade só se transforma a partir de uma elite e essa elite é universitária e é necessário uma renovação da mesma. Só há cidade quando existem pessoas a viverem nessa sociedade, que estejam misturadas e não em promiscuidade. À ACM talvez falte complementar as suas actividades com formação cívica». A rematar a sua intervenção, relembrou a questão da divisão/divórcio entre Cidade e Universidade na promoção da vida colectiva: «…o problema está na Cidade, claramente. Nos péssimos presidentes de Câmara que temos tido».

Na ausência de uma «solução mágica» para o problema do associativismo, os convidados alertaram para a necessidade de continuar o estudo da sociedade tendo em vista decisões políticas, que promovam uma cidadania activa e presencial, consciencialização política e readaptação à vida democrática.

(*) Historiador e investigador