Coimbra  16 de Agosto de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Rainha Santa Isabel: Padroeira de Coimbra e protectora dos terramotos

3 de Julho 2018
13 - Rainha Santa túmulo

O túmulo de prata e cristal da Rainha Santa no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova (D.R.)

 

Coimbra vive as festas da Rainha Santa e da Cidade. A sua padroeira, Isabel de Aragão, nasceu em Saragoça, a 04.01.1271 e foi consorte de D. Dinis I, sendo popularmente conhecida como Rainha Santa Isabel. O feriado municipal coincide com a data do seu falecimento: 04 de Julho de 1336, em Estremoz.

Foi uma das primeiras mulheres a destacar-se na história portuguesa. A sua riquíssima biografia na colossal obra de A. Vasconcelos “Dona Isabel de Aragão – A Rainha Santa”, assinala as qualidades de uma personalidade multifacetada: suportou a infidelidade constante do seu marido que visitava damas nobres na região de Odivelas; evitou em 1325 uma guerra fratricida entre seu filho D. Afonso IV e o pai, demonstrando uma clara capacidade negocial e diplomática; foi peregrina de Santiago a cujo santo ofertou muitos bens pessoais; e freira clarissa no Mosteiro de Santa Clara a Velha em Coimbra.

As ajudas aos pobres, com sucessivos gestos de bondade e piedade, acabaram por a consagrar, ainda em vida, com a reputação de Santa, vindo a ser beatificada pelo Papa Leão X em 1516 e canonizada pelo Papa Bento XIV em 1742. A história mais popular é, sem dúvida, o milagre das rosas. Foi em Coimbra que a Rainha Santa passou parte substancial da sua existência, como clarissa no Mosteiro de Santa Clara a Velha, onde veio a ser sepultada.

As razões sui generis da protecção à cidade

Por deliberação da Câmara Municipal de Coimbra, de 24 de Fevereiro de 1756, a Rainha Santa foi designada protectora da cidade, a par de S. Teotónio e dos Santos Mártires de Marrocos. É curioso verificar que foram fenómenos naturais, designadamente, a actividade sísmica, a determinar a eleição dos protectores e elevação dos mesmos à categoria de padroeiros.

Facto bem evidente no conteúdo da acta da vereação do referido dia. Reunida a Câmara Municipal, com Vereadores, Procurador Geral, Nobreza, Juiz do Povo, Mesteres e os 24, e por proposta do Juiz de Fora votou-se por unanimidade como «Padroeiro para livrar dos infortúnios futuros que podem suceder dos tremores de terra, e de otras similhantes desgraças (…) a Rainha Santa Isabel, Santo Teotonio e os Martires Santos de Marrocos».

O apelo ao sagrado e a intercessão divina foram, na época, a resposta das autoridades para serenar o povo perante um fenómeno que não encontrava explicação na ciência e que era visto como manifestação sobrenatural. Recorde-se, aliás, que o séc. XVIII manifestou grande actividade sísmica no território nacional, com relatos de sismos mais ou menos intensos para os anos de 1719, 1722, 1724, 1732 e 1739 que culminaram na grande catástrofe sísmica de 1755.

Factos interpretados como castigos divinos e que, em Fevereiro de 1756, aquando da elevação da Rainha Santa a protectora e padroeira da cidade estariam não só muitíssimo presentes no espaço mental da população, pela dimensão conhecida do terramoto e maremoto de 01.11.1755, mas também no espaço territorial, dadas as constantes réplicas sísmicas que marcaram os meses seguintes ao grande episódio.

Se dúvidas subsistissem quanto a esta ligação entre o sagrado e o fenómeno natural assinalado, elas dissipam-se na leitura da resposta das freiras de Santa Clara à carta do Senado da Câmara Municipal comunicando a eleição da Rainha Santa como protectora da cidade. A abadessa D.ª Maria Isabel de S. Francisco escreveria a 01.03.1756: «…recebeu toda esta comunidade a carta de V.S. e com igual gosto a ela, a eleição que com toda a nobreza desta Cidade, fizeram da nossa Rainha Santa para sua Protectora na ocasião presente para livrar este Povo dos ameaçados castigos que nos causam os contínuos tremores da terra, que parecendo divida o acerto de sua eleição, não deixa de nos parecer também para nós a maior lisonja, tendo por muita fé que a mesma nossa Santa Rainha saberá desempenhar a devoção…».

Honremos, pois, a nossa padroeira, protectora e advogada de todas as coisas, em especial dos sismos que a qualquer instante nos podem surpreender.

(*) Historiador e investigador