Coimbra  23 de Maio de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Por uma nova Coimbra: aspirações legítimas & efeitos desejáveis

4 de Maio 2018

Nascido e criado em Coimbra, estudioso do seu vasto património, olho para a minha cidade e região com um sentimento misto: condenatório do desprezo a que nos têm votado mas crente na sua grandeza histórica como fonte de inspiração para a desejável renovação que a catapulte para outros voos, designadamente, o da liderança regional.

Noutros contextos históricos, Coimbra habituou-se a desempenhar papel fundamental: durante séculos, recorde-se, foi o centro, administrativo, político, social e religioso, de uma vasta área designada por «Termo Coimbrão», cujos limites iam de Esgueira a Leiria e das faldas da Serra da Estrela à Figueira da Foz.

Da comparação inevitável com o passado, destaca-se a perda de influência política nacional. Urge criar um grupo multifacetado, acima de todo e qualquer outro interesse, que pense e projecte Coimbra para centro de uma área metropolitana, impondo-se entre Lisboa e Porto, que vêm ganhando espaço físico e mental sobre áreas importantes do território que nos pertencem – a nós, conimbricenses e regionalistas!

Coimbra deve olhar para si própria, diagnosticar erros e omissões, definir o rumo e escolher os melhores para a servirem. Olhando para a realidade do município, e tendo em atenção as suas necessidades e subáreas críticas, proponho, a título de exemplo:

– Na cultura e turismo: dinamizar percursos históricos ao abandono como a Rua da Sofia e seus antigos espaços colegiais, bem como as características ruelas da baixinha; fomentar o conhecimento com a criação de centros interpretativos sobre a Canção de Coimbra e História da Cidade; estimular a investigação e publicação sobre as comunidades municipais; salvaguardar o património material e imaterial; aproximar-se das comunidades lusófonas da CPLP; valorização das suas personalidades; pugnar por Capital Europeia da Cultura.

– No conhecimento e novas tecnologias: aproximar a Universidade da Cidade fomentando parcerias e intercâmbios com instituições de referência em vários domínios (escolar, cultural, desportivo, social); estimular incubadoras e aceleradoras, redinamizar o iParque tornando-o um centro empresarial e industrial de excelência, contraponto de uma cidade excessivamente orientada para comércio e serviços.

– Nas acessibilidades: reabilitar os eixos viários do IP3 e IC2; repensar a articulação de trânsito em torno dos HUC. com criação de parques de estacionamento gratuitos para utentes e funcionários; encontrar uma solução definitiva para o problema do Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), vulgo Metro da Lousã, que após anos de estéril discussão parece avançar (resta saber de que forma e com que dinheiros) ao abrigo da reprogramação dos fundos comunitários do Portugal 2020; incentivar o plano municipal de alcatroamento de estradas; pugnar pela melhoria das condições do actual aeródromo, sem megalomanias e demagogias, abrindo a discussão à sociedade civil.

– No ordenamento: pugnar pela plataforma logística de mercadorias em Souselas/Botão com respectivo nó rodoferroviário; rever o PDM e outros planos de ordenamento do território, de forma a permitir o desenvolvimento económico de determinadas áreas do município, abrindo a porta a potenciais investidores dos quais se conhece a vontade mas a que faltam autorizações e plataformas de diálogo; estabelecer uma área multifuncional de apoio a turistas e peregrinos, com zonas de parqueamento e dormida, evitando o congestionamento da cidade nas épocas de maior afluxo.

– Centro Histórico: reabilitação da baixa e da alta com critérios de equilíbrio, que permitam o regresso de residentes e a fixação de comerciantes; fazer das principais artérias da baixa um espaço comercial coberto; interditar ao trânsito áreas sensíveis como a praça do Comércio; implementar como meio de transporte preferencial o eléctrico e o trólei.

– Lazer: melhorar as condições de utilização do Choupal, Parque Verde e Mata de Vale de Canas, dotando-os de novos equipamentos, que salvaguardem a segurança de pessoas e bens e que permitam a realização de eventos com escala; dinamizar actividades lúdico-recreativas em torno do rio Mondego.

– Desporto e associativismo: unir a cidade em torno do seu principal clube, proporcionando as condições para uma AAC. Na 1.ª divisão; rever o regulamento municipal de apoio ao associativismo; promover o levantamento histórico do movimento associativo da região.

Algumas destas medidas, há muito diagnosticadas, são do conhecimento dos decisores. Todas possuem um aspecto em comum, que passa pela questão social e melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e de quem nos visita, numa articulação que se deseja perfeita no seio da “sociedade” aspirações legítimas e efeitos desejáveis.

A alternativa é a subserviência ao poder central e majestático, com desempenho de papéis e tarefas secundários, cujos resultados nos têm conduzido ao marasmo sócio-económico e imobilismo político-governativo de que todos – uns mais, outros menos, é certo – estamos de há muito saturados.

(*) Historiador e investigador