Coimbra  26 de Maio de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Perspectiva histórica: A gestão da floresta: VII – as folhosas

2 de Fevereiro 2018
17 - OP João Pinho Folhosas

Conjunto de folhosas (comunidade ripícola) no Choupal-Coimbra, ladeando o Mondego

A floresta portuguesa é um ecossistema muito antigo, com predomínio das árvores de folha caduca no Norte e Centro do país e árvores de folha perene a Sul, adaptadas às características do clima mediterrâneo.

Existem, no planeta, cerca de 170 000 espécies de folhosas. Em Portugal a diversidade é assinalável, devido, por um lado, à diversidade natural da flora espontânea portuguesa e, por outro, consequência da introdução de várias exóticas, para fins ornamentais ou repovoamento florestal.

A categoria de «Outras folhosas» representa, aproximadamente, seis por cento da floresta nacional, distribuindo-se por três subcategorias:

– Árvores de fruto: alfarrobeira, cerejeira, medronheiro, nogueira e aveleira;

– Árvores ripícolas: amieiro, choupo, freixo, salgueiro, ulmeiro e vidoeiro;

– Árvores exóticas e ornamentais: acácias, plátano, tília e tulipeiro.

Algumas destas árvores apresentam-se no todo nacional, em nítido declínio – caso do ulmeiro – enquanto outras proliferam na floresta portuguesa de forma descontrolada com inevitáveis danos nos ecossistemas – como a acácia.

Nas últimas décadas, a violência e extensão dos incêndios, que destruíram centenas de hectares de floresta, e a ausência de uma política de ordenamento florestal conduziram à redução dos efectivos das espécies de folhosas, hoje confinadas a pequenas manchas de pouca expressão.

Contudo, a sua importância como elemento estratégico no futuro ordenamento florestal ficou bem evidente para todos – com consequências positivas para os políticos e técnicos envolvidos no processo se assim o entenderem – no rescaldo dos grandes incêndios de Junho e Outubro de 2017. Relembrem-se, a este propósito, as imagens de extensas áreas carbonizadas, contrastando de forma inesperada, aqui e ali, com manchas verdes, que marginavam estradas, rios e pequenas linhas de água – onde o fogo, de forma aparentemente inexplicável, se havia detido e ou contornado.

O que que muitos apreenderam como autêntico milagre, não passou, na verdade de uma conjugação há muito desenhada pela via comum e erudita. De facto, a sabedoria popular sempre apontou alguns tipos de floresta, nomeadamente, as folhosas caducifólias – como o castanheiro, bidoeiro, ou carvalho alvarinho – agentes capazes de modificarem o comportamento do fogo, limitando a sua expansão.

O empirismo acabaria por ser confirmado por vários estudos científicos, mais ou menos recentes, centrados na modelação do fogo e selectividade do mesmo na Península Ibérica. É hoje reconhecido pelos técnicos que a presença de espécies folhosas diminui o risco de incêndio em áreas florestais, quando comparado com a presença de povoamentos de pinheiro-bravo e eucalipto.

As imagens do aparente milagre, mais não foram do que a comprovação da maior resistência ao fogo e da resiliência (capacidade de recuperação) das folhosas. Estes processos, aliás, garantem uma maior estabilidade na manutenção dos processos ecológicos e fornecimento de serviços aos ecossistemas, melhorando a qualidade ambiental: pelo sequestro de carbono, formação de solo e regulação do ciclo hidrológico, entre outros exemplos.

Deste modo, e tão rápido quanto possível, seria fundamental aplicar medidas de gestão tendo em vista a regeneração natural das florestas de folhosas nas áreas de maior risco de incêndio, integrando-as em novas plantações, e criando anéis de defesa em torno dos núcleos de habitação urbanos e rurais.

Sendo cada vez mais improvável a redução da incidência de fogos, perante o cenário de mudanças climáticas, torna-se imperioso investir de forma criteriosa e estratégica na gestão da floresta, mitigando a severidade da paisagem, dando prioridade aos tipos de vegetação melhor adaptados e resilientes a um duro combate humano e florestal.

(*) Historiador e investigador