Coimbra  17 de Dezembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Marcos Júlio

Olh’ó roobôô!

27 de Novembro 2017

Irritam-me profundamente certos comentadores “encartados”, que postam opiniões sobre economia, ao serviço de sabe-se lá de quem (desconfia-se…), mas que nada contribuem para o bem-estar que não seja o deles próprios.

Vem este meu desabafo a propósito das recentes opiniões sobre o Orçamento do Estado, mas que eu ligo também a uma série de eventos recentes, no mundo e, em especial, em Portugal, dos quais destaco três. Refiro-me à “Web Summit”, com a maior concentração de destruidores de emprego jamais vista, onde foi exibido um “boneco”, baptizado Sophia, que – e aqui o segundo evento – foi capa de uma revista nacional, com apropriada legenda “desculpem, mas estão despedidos” (o desculpem, como todos perceberam, só pode ser “erro tipográfico”…), curiosamente numa feliz coincidência (e aqui o terceiro evento que destaco) com o Congresso “Direito e Robótica” organizado pelo Instituto Jurídico da Faculdade de Direito de Coimbra (prova que a FDUC não está velha) onde se discutiram estas questões de relacionamento entre robôs e trabalho. Ora vejamos, então:

Tal como muitos dos leitores, cresci lendo e vendo séries e filmes de ficção científica (género que muito me agrada), entre os quais, e só para relembrar alguns, “Espaço 1999”, “Enterprise”, “Galáctica”, “Guerra das Estrelas”, “Aliens”; enfim, inúmeras horas de puro deleite de antecipação futurista.

Como muitos, também eu antevia que na minha idade adulta (e pese embora as atemorizações provocadas pelas predições de enredos inquietantes como o do “Exterminador”) a grande parte dos serviços fosse, hoje em dia, executada por robôs.

Muitos o fazem já, embora às vezes nem tenhamos a noção disso: desde a “Via verde” por nós tão aclamada (portageiro é uma profissão em vias de extinção), a uma panóplia de serviços que efectuamos online (homebanking, aquisição de bilhetes, compras, serviços públicos, etc.) – em que associamos o serviço prestado a um computador ou programa informático, mas também a uma série de outras actividades em que uma máquina substitui o labor humano.

A mais visível da nossa actualidade é a dos automóveis autónomos, que circulam sem necessidade de condutor. Quando esse sistema for aprovado (já não falta muito), deixamos de precisar de motoristas: taxista é uma profissão a abater (a UBER garante que já em 2020 terá carros autónomos a prestar serviços de passageiros); a seguir, também os camionistas não serão necessários, uma vez que os veículos percorrerão os caminhos sozinhos e sem necessidade de paragem para descanso; seguir-se-ão os motoristas de transportes públicos (autocarros e comboios), depois, mesmo aviões…, enfim, milhares de desempregados.

Mas podemos continuar a desfiar o novelo dos desnecessários: no futuro, será mais fiável “consultar” um robô do que um médico; a máquina estará sempre disponível, o erro médico será menor e nunca o paciente poderá queixar-se que o clínico o atendeu mal ou estava mal-humorado.

Já há aplicações para detectar cancro da pele, por exemplo, e há mesmo quem diga que o seu diagnóstico é mais fiável do que o do médico. No futuro, ninguém tenha dúvidas, as cirurgias serão realizadas por robôs, que serão mais precisos e rigorosos do que a mão humana.

E mesmo nas profissões mais inusitadas será assim! No futuro, será muito mais confiável uma decisão proferida por um computador do que por um juiz: será muito mais imparcial (não poderemos dizer que gostou mais de uma parte do que da outra, ou que se deixou influenciar pela testemunha que chora), aplicará o “conhecimento” de todas as decisões idênticas pré-existentes, proferirá a sentença (quase) na hora e, acima de tudo, ninguém o poderá apelidar de ser corrupto ou interesseiro. E se o juiz pode ser substituído por um robô, também os advogados não serão necessários, e os funcionários e… nem os tribunais, tal como, agora, os concebemos.

E podemos ir por aí fora: os polícias serão robôs (“robocops”), tal como, já hoje, os exércitos apostam mais nas máquinas (drones, por exemplo) do que em militares; não será necessário passar multas de trânsito, porque o veículo nos impedirá de transgredir (o que até é bom!) e se alguma coisa anormal acontecer será o próprio veículo a emitir o aviso (tal como hoje já acontece com certas marcas em caso de avaria) e a cobrar a multa.

Os animais de companhia serão mecânicos e até os “cuidadores” de doentes, idosos e deficientes (que pensávamos ser a profissão de futuro) serão robôs completamente autónomos, com vantagens evidentes para o padecente, pois estarão vigilantes 24 horas por dia, serão tolerantes e pacientes e não têm problemas músculo-esqueléticos no exercício das suas funções e correm muito menos risco de enganar.

Enfim, não há profissão ou actividade actual que escape ao domínio futuro dos robôs, e até se algum mais desconfiado pensa que “sempre haverá quem tenha de programar o robô”, desengane-se, pois esse já é o objecto e objectivo de muitos cientistas e estudiosos, sob o grande “chapéu” da denominada “inteligência artificial”: os humanos (alguns, pelo menos) querem que máquinas programem outras máquinas.

Para termos uma ideia das mudanças que hão-de ocorrer, daqui a uma década, o mais bem pago do mundo será um jogador de … videogame!

Ora, e porque é que tudo isto me deixa de pelos eriçados, como disse, logo no início?

É porque aqueles comentadores de pacotilha, muitos dos quais políticos que influenciam a condução dos nossos destinos (muitos dos quais líderes europeus), continuam a defender ser preciso criar mais emprego, mais postos de trabalho! Isto, ao mesmo tempo que tecem loas aos maiores aniquiladores de emprego dos nossos dias.

É preciso produzir mais, exportar mais, criar riqueza, criar valor acrescentado, palavrões ocos e vazios na boca desses dizedores. Mas como? Onde? O quê? Ah, isso eles não sabem.

Eu bem sei que dizem que novas profissões irão surgir, que a sociedade se adaptará, que já assim foi no passado com a revolução industrial, etc. Mas eu é que não acredito nisso; desde logo porque o objectivo que preside ao empreendedorismo moderno é, precisamente, eliminar ao máximo a intervenção humana.

“O que faz falta”, e isto é só a minha modesta opinião, é verdadeiramente colocar a máquina ao serviço do homem (seu criador). Tributar a máquina, pois é ela que nos substitui nos nossos ofícios, e aliviar a carga fiscal / social do humano. E quando refiro tributar, para que fique bem claro, é taxar o instrumento no local onde se encontra, e não taxar o capital e o lucro, pois este é fácil de esconder e de diluir. Pagar impostos na Holanda sobre bens produzidos em Portugal não pode ser a solução, pois é em Portugal que os empregos foram substituídos e que o lucro é obtido.

Não tenho dúvidas que no futuro o humano será premiado por trabalhar, ao contrário do que sucede agora, mas lamento que seja preciso uma revolução social, quiçá violenta, para atingir tal desiderato.

E é por isso que não consigo aceitar (embora os compreenda bem…) que os nossos empresários “chorem” diariamente, coitadinhos, porque não podem aumentar os salários de miséria que pagam aos seus escravos, digo, empregados, enquanto por trás buscam apoios e incentivos para os eliminar. Porque, vá-se lá tolerar tal coisa, descansam todos os dias, anualmente têm direito a férias e, às vezes, até adoecem.

Bem que os nossos políticos poderiam fazer alguma coisa de útil, em beneficio de quem governam e os elege, e atalhar caminho na busca de uma solução pacífica, benéfica e realmente valorizadora do contributo das novas tecnologias para o bem-estar social e humano.

(*) Advogado