Coimbra  21 de Novembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

O rigor histórico (ou a falta dele)

8 de Junho 2018

“A arte tanto pode morrer do excesso de rigor quanto da extrema liberdade”. [Henri Lefebvre – filósofo e sociólogo francês, 1901-1991]

Quando há dias passeava na zona norte do Município de Coimbra deparei-me com um cartaz, tamanho A3, anunciando um mercadinho medieval numa conhecida povoação ali para os lados da Serra da Rocha. No entanto, os documentos históricos conhecidos contrariam o anunciado evento de cariz histórico: o lugar não tem origem medieval nem alguma vez lá se fez mercado ou mercadinho, sancionado por carta de feira ou outro diploma administrativo do tempo da Monarquia.

Tratou-se, na verdade, de mais um evento sem rigor histórico, com a agravante de ter contado com interessantes apoios institucionais. Uma realidade que se vem alargando nos últimos anos no todo nacional, sem que ninguém separe as águas entre a verdade e a mentira, entre o rigor e a falta dele.

O que importa é ter uma festa qualquer, um pretexto mobilizador de recursos humanos e materiais, de preferência que traga retorno nas urnas, que sequestre as associações e dê ao povo o pão e circo para satisfazer e distrair, aplicando uma conhecida regra de governação central do Império Romano.

Contudo não estamos na época imperial romana. Vivemos o tempo do conhecimento histórico acelerado, da difusão de documentos, de profusão de estudos, de pós-graduações, doutoramentos e altos estudos – realidade em contraciclo com a desvirtuação das recriações e comemorações de base histórica.

Apesar da falta de rigor histórico em muitos eventos que se vão fazendo pelo país – onde sob a designação de “medieval” encaixam produtos fora de contexto como o açúcar ou milho, ou excluem outros característicos como os caldos de leite de cabra ou a castanha pilada – a verdade é que alguns municípios têm a preocupação de criar órgãos ou comissões colegiais que procuram atenuar tensões, gerar consensos e conferir credibilidade. É preciso investigar, sinalizar fontes, recolher elementos e validá-los para atingir o rigor histórico.

Este caminho, o único a seguir se desejamos qualidade, rigor e inovação, deveria ser acompanhado, a meu ver, por estudos prévios sobre o evento a recriar, com recolhas bibliográficas incluindo a documentação disponível.

Lutas que travei e o silêncio institucional

Nos anos que já levo de participações em eventos culturais, designadamente, nas recriações históricas, recordo a luta que travei para que em Botão se fizesse uma Feira Antiga e não uma Feira Medieval, ou a longa noite na sede da Junta de Freguesia de Ceira para que se não realizassem as comemorações do foral manuelino – neste último caso contornando o pensamento de grande parte dos membros de uma pró-comissão para quem a ausência de foral manuelino validava, à sua maneira, as desejadas e programadas comemorações: «Se nada há que prove a sua existência também nada há que demonstre a sua inexistência» – afirmavam em última análise, numa tentativa extraordinária de forçar e validar um evento sem base histórica alguma que o justificasse.

Porém, subjaz a toda esta situação um silêncio ensurdecedor. Instituições de referência como a Academia Portuguesa da História ou a Academia Real das Ciências, com papel interventivo na sociedade não tomam posição alguma sobre esta matéria.

Coimbra tem, inclusivamente, uma vetusta Universidade e consagradíssimas figuras em várias áreas do conhecimento, as quais apesar do seu enorme prestígio só esporadicamente se libertam dos espartilhos mentais e do conforto da colina.

Também a Câmara Municipal de Coimbra dispõe de respeitadíssimos e experimentados técnicos nos serviços de Cultura e Turismo que certamente têm conhecimento desta e de outras desvirtuações, mas que preferem não levantar poeira sob pena de reacções alérgicas indesejáveis.

A pergunta impõe-se: porque pactuam com esta falta de rigor? Responda quem souber!

Em nome do rigor histórico dos nossos eventos culturais é urgente olhar para esta problemática com sentido técnico e científico, sob pena de cairmos no ridículo institucional e nos afundarmos nos caprichos individuais sancionados pelo voto nas urnas.

(*) Historiador e investigador

 

 

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com