Coimbra  18 de Outubro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Rui Avelar

O raio da tese da PJ é um nado-morto

4 de Outubro 2018

O anterior director nacional da Polícia Judiciária jurou, a pés juntos, a 18 de Junho de 2017, ter sido um raio a causar o catastrófico incêndio florestal que deflagrou, na véspera, em Pedrógão Grande.

Na altura, era evidente, intrigante e preocupante a precipitação de José Maria Almeida Rodrigues; depois, uma Comissão Técnica Independente e o Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais desautorizaram a versão do jurista.

A 29 de Junho de 2017, em edição impressa do “Campeão”, questionei por que se precipitou o director nacional da Polícia Judiciária.

Na ocasião, fiz notar que a afirmação de Almeida Rodrigues, soando a estranha precipitação, foi proferida volvidas pouco mais de 12 horas sobre as trágicas mortes de 64 pessoas.

A avaliar pela precipitação do director nacional da PJ, a investigação à origem do mortífero incêndio é assunto para não perder de vista, assinalei, há 15 meses.

A 08 de Julho [de 2017], o semanário Expresso noticiou, na primeira página, que “a PJ insiste na tese de raio e contraria o IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera”. O IPMA alude a cinco por cento de hipóteses de se ter tratado de um raio a estar na origem do fogo.

Segundo o Jornal, num relatório de 120 páginas, entregue ao Governo, o Instituto revela inexistência de provas meteorológicas de haver sido trovoada a causar o sinistro.

Pela leitura do semanário, verifica-se que, “no ponto zero do incêndio”, em Escalos Fundeiros, “a PJ terá detectado um corte (de raspão) num dos cabos [de energia eléctrica] de média tensão” que atravessam aquela zona do concelho de Pedrógão Grande.

Em Escalos Fundeiros, há, de facto, um pinheiro, relativamente apodrecido, que, porventura, devido ao seu aspecto foi associado à origem das chamas. Perto do local, avulta um carvalho, adjacente a linhas de transporte de energia eléctrica, e há quem entenda ter sido lá que teve início o fogo.

Há até quem garanta que o então director nacional da Polícia Judiciária ficaria mais bem esclarecido sobre o assunto se consultasse a GNR.

Acresce que um polémico artigo capaz de ilibar agentes privados por falhas do SIRESP – Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal não deixa de contemplar o raio do raio.

Trata-se do 17º. artigo de um contrato, cujo teor sinaliza que o Estado português iliba o SIRESP de quaisquer responsabilidades em casos de catástrofes.

O raio é que, não tendo o Ministério Público encontrado evidência de “trovoada seca” à hora da deflagração do fogo, ficamos sem saber por que raio nos impingiram a tese do raio.