Coimbra  13 de Dezembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Luís Francisco Marques

O lugar de Deus no que me ardeu!

10 de Novembro 2017

Há terras e pessoas incógnitas que a história nunca relata. Esta é sempre reescrita a partir dos fortes e dos vencedores. Nesse sentido, é sempre um ‘ponto de vista’. A subjectividade e a pertença são, por norma, duas variáveis que influenciam o relato da narrativa. Quando em causa estamos ‘nós’, os ‘nossos’, ou o ‘nosso’, facilmente condenamos à irrelevância o mito da objectividade imparcial. E bem! É o caso agora.

A terra chama-se Castinçal e é aldeia que me viu nascer. Os nomes são os dos ‘meus’, bravos, que resistiram sozinhos na noite de 15 de Outubro. Escrevo, agora, por três razões. Porque ninguém disse nada sobre o Castinçal, mesmo na era da democraticidade da informação, e isso é importante para que se faça o luto. Porque acredito que a ‘ciência teológica’ deve ter uma palavra para uma proposta de fundamentação e formatação do pensamento, neste particular e, por maioria de razão, no nosso singular contexto. Porque a interrogação silenciosa que me embargou a voz no dia em que vi as duas casas pegadas à minha em escombros e o meu quintal ardido até à porta de casa obriga-me conscientemente a dizer e a fazer algo.

De repente não ter nada, sem aviso e sem preparação, é algo que o mais preparado projecto não consegue antecipar, dada a infinita conjugação de variáveis em jogo. Podemos encontrar ‘bodes expiatórios’, mas há que reconhecer a nossa fragilidade diante do avassalador. E assumir, num diagnóstico lato, que uma incúria estrutural nas políticas públicas e uma irresponsabilidade pessoal nos estilos de vida concretos, onde todos temos o nosso quinhão, estão por detrás desta catástrofe. O que se passou é grave demais para que nada se altere. Mas o tempo perdido em discussões estéreis sobre quem falhou, em opiniões fúteis sobre como devia ter sido ou em pavoneios e fretes plásticos diante de câmaras e objectivas é energia desperdiçada, que faz falta na luta por soluções, onde a urgência e o projeto se têm de conjugar com equilíbrio.

Duas notas me impressionaram nos espontâneos comentários das pessoas. Uma, o suspirante ‘estamos vivos’! A vida, na sua densidade, beleza e fragilidade é o valor dos valores, misteriosamente não avaliável e incomparável a casas, carros, animais, árvores e outros bens. E quem sentiu a vida daquela forma em perigo testemunha isso com uma autoridade inigualável. Percebeu ainda, na carne, que não é dono absoluto de si, nem a única medida para os seus critérios de acção, nem a única finalidade última das suas motivações. E como se entende melhor, quando se entende e se fala com o corpo todo!

A segunda impressão, olhando os restos que sobravam de pé, ‘Deus não quis que as minhas coisas ardessem’! Uma nota prévia de respeito, porque bem sabemos que quem sofre grita e não está interessado em reflexões, apenas em aconchego que atenue o sofrimento. Mas agora, com distância cronológica e crítica, já podemos pensar na contradição entre as coisas que não arderam ‘porque Deus não quis’ e as dos vizinhos que arderam ‘sabe-se lá porquê’.

O Deus que Jesus mostrou, em quem acredito, não pode agir assim, de forma aleatória e caprichosa, ou não seria ‘merecedor’ de confiança. Então, numa cultura de matriz crente, a fé só pode silenciar-se solidariamente diante do trágico? Diria que existencialmente o silêncio que segura na mão e afaga o rosto já é muito e pode ser profundamente religioso. Mas sim, acredito noutras leituras. Inicio-as pelo igualmente espontâneo e cultural ‘graças a Deus’.

Graças a Deus, que diante das nossas raízes queimadas, da nossa identidade patrimonial arruinada e dos nossos alicerces desmoronados, continuamos a encontrar réstia de sentido para a vida e a ver possibilidades de futuro. Graças a Deus, que Ele actua muito para lá das fronteiras do ‘religioso institucional’, quando se percebe que muitas pessoas foram muito além do que se seria expectável das forças humanas, numa solidariedade que, ao nível da fundamentação, talvez não se esgote numa simples ‘filantropia racional’.

Graças a Deus que esses resistentes bravos e solitários cuidaram do seu e do de outros, onde me incluo, num sentido de fraternidade verdadeiramente singular e sacramental. Graças a Deus que vizinhos que não se falavam, perceberam o alcance do que estava em causa e lutaram lado a lado pelo que é comum. Um Deus assim não é o mágico que sustém o trágico, mas é muito mais interessante. Diante de um cenário assim, erguem-se as grandes questões do sentido da existência.

Depois de acudir à urgência com prontidão, após se intensificar a capacidade de diálogo crítico, fazendo também assim o luto dos acontecimentos, algo do que somos e fazemos no concreto das nossas opções tem de ser diferente.

(*) Padre, assistente espiritual no CHUC