Coimbra  21 de Março de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Casimiro Simões

Natal das pedras de Pedrógão

22 de Dezembro 2017
16 - Historias descritas Velho do saco

Um “velho do saco” que deambulava pelas serranias (foto de Luísa Sales)

O velho de Pedrógão está mesmo a chegar ao seu destino. Saiu de casa ainda o sol despontava sobre as Molucas, ilhas de cravo e noz-moscada, e já leva farta taleigada de horas de caminho.

Saltita ainda o barbudo, de fraga em fraga, carregando às costas o saco surrado com que também o avô se paramentava, digamos, em finais do século XIX, na hora de pagar a pensão ao senhor Feio, dono de muitas terras do outro lado da montanha.

No mesmo saco, rectângulo estreito de linho antigo com remendos de mil nações – tantas vezes enchido, esvaziado e suado – continua o homem a guardar honra e proveito dos ancestrais das serranias que o fogo e a incúria reduziram a cinzas.

Quando o temporal fustigava gente que tinia por montes e vales, esse saco – adereço de pastores, carvoeiros, almocreves e indomáveis roçadores de mato, a par das polainas, do barrete tecido na Castanheira e do varapau de marmeleiro – rapidamente se tornava capote dos humildes, filhos de um qualquer David que, nas alturas, venciam alcateias e gigantes.

Contigo e com a tua família, meu bom amigo, a palavra dada é sempre palavra honrada! – comenta o ancião Zé do Galho, que nas últimas semanas tem visto o adágio popular invocado profusamente e em vão, nos corredores de São Bento, como nos jornais, ecrãs e ondas hertzianas.

Sabemos que o viúvo é um republicano dos sete costados, mais de 100 anos de idade bem medidos, tantos que já lhes perdeu o conto.

Mora, desde que se conhece, na vertente norte da serra e descende de uma família que tinha taberna aberta na aldeia natal.

O pai abominava os terratenentes do concelho, a quem o antepassado do velho de Pedrógão, oriundo do Urzal Fundeiro, ia todos os anos, no fim do verão, após as derradeiras colheitas, entregar a renda – a pensão, como diziam os cavadores de terra alheia – que era paga em alqueires de milho ou feijão que nem sempre a terra dava.

Por aquelas bandas, onde o suão setembrino varre as eiras na hora de recolher o milho nas arcas, correu sempre leite e mel, no tempo em que os lobos ainda uivavam e os pastos eram de todos.

Uma simples abelha, entre milhões de zumbidos, era venerada pelos serranos como vaca sagrada, para que o mel de urze fosse especial, muitas léguas em redor, e viesse mais tarde a ser o melhor do mundo!

E uma cabra do monte era cuidada pelo dono como princesa, em loja térrea, cama enxuta e forragem em abundância na manjedoira, nos meses de neve e chuva.

Livre como o vento, Dama de Pé de Cabra narrada por Herculano, no século XIX, muitas vezes com graciosos brincos na barbela, a pequena ruminante só esticaria o pernil, a bem ou a mal, para ser chanfana única, quando mais já não tinha para dar ao camponês dos socalcos xistosos: nem cabritos, nem leite, nem queijo.

No Urzal, onde nasceu o velho do saco, já quase desapareceram as tradicionais casas com balcão que caracterizavam o lugar.

Em muitas famílias, os tecelões herdavam a profissão dos antepassados desde tempos imemoriais – conta o Ti Galho, que conhece a cordilheira xistosa como a palma da mão e tem na ponta da língua nomes de sítios onde muitas pessoas são ainda lendas vivas.

A fábrica da Lomba, em actividade contínua há mais de 200 anos, laborava e ainda labora um pouco mais acima, no sopé da colina, entre as margens da ribeira de Santo António, que, precisamente naquele ponto, se envaidece e passa a reclamar estatuto de rio dos Pobrais.

Sol outonal acossado pela chuva dos nabais

Em meados do século XX, às portas da vila, havia ainda um conjunto significativo daquelas habitações típicas com varanda geralmente virada a poente.

Assente ao longo de um dos terraços fluviais do vale da Lomba, a rua da povoação estende-se por quase dois quilómetros, entre a Ponte Nova e a Cruz de Fogo, e abrange a Porta dos Feios, onde o conde herdeiro – que ainda é monárquico, mas agora se reclama de uma certa esquerda socialista, em sintonia, aliás, com o autarca Ladino – detém terras e terras ao abandono.

Só o velho de Pedrógão, com mais de 90 anos, ainda lhe amanha uma das treze parcelas de solo de aluvião, dos mais ricos de Portugal, logo a seguir aos arrozais do Baixo Mondego e aos milheirais da bacia do Vouga.

Em setembro, quando um sol quase outonal, acossado pela chuva dos nabais, tombava tristemente lá longe, acima do campanário de São Miguel, as mulheres abrigadas nos balcões joeiravam as últimas quartas de feijão: branco, encarnado, preto, riscado…

No barraco do quintal, nessa época do ano, os homens terminavam os trabalhos de acondicionamento do vinho novo ou faziam a aguardente, pagando em géneros ao dono do alambique, geralmente uma garrafa da dita por cada destilação de dez litros.

Uma alambicada. Um dia inteiro de paciência e fraternidade vicinal, com um cepo em brasa a expulsar da caldeira de cobre, repleta de engaço, aquele fio cristalino que cura e mata!

O barbeiro andava de porta em porta. Barbas e cortes de cabelo eram igualmente custeados com a prata da casa. Milho, outros cereais e leguminosas, no tempo certo do ciclo agrário, quando ainda ninguém falava de alterações climáticas.

Ao matador dos porcos, as pessoas agradeciam – eufemismo civilizado para pagamento de um serviço! – com um prato da melhor carne do suíno.

No Urzal, o povo venera – ou venerava – São Miguel, numa capela barroca que pertenceu aos aristocratas que mandavam também na indústria dos panos, nos lagares de azeite e nos moinhos, ditando ainda as regras de uso das águas remanescentes para regar os campos dos pobres agricultores a jusante.

A festa, logo que o milho, branco ou doirado, estava recolhido, tinha gravada uma espécie de marca de água da comunidade têxtil e da relação serviçal, por vezes paradoxalmente fraterna, sem nunca deixar de ser reverencial, dos assalariados com os poderosos que lhes davam trabalho na fábrica e nos campos.

Flores e outros enfeites de tecido eram confeccionados nas casas com a matéria-prima de várias cores disponibilizada pela indústria local.

Na aldeia, os operários, maioritariamente tecelões e tecedeiras, mas também, mais tarde, ligados à transformação de madeiras e outras actividades fabris, nunca deixaram de ser camponeses, antes e depois da revolução democrática do 25 de Abril de 1974.

A rua era em terra batida ou, aqui e ali, ostentava apenas alguns troços de calçada paupérrima. As mães gritavam à janela para chamar os filhos que brincavam longe.

Temiam que as crianças caíssem para a levada que passava ao lado, levando água para a antiga manufactura de incentivo pombalino, as azenhas e os lagares.

Receavam também que os miúdos adormecessem no balcão da vizinha à hora da sesta.

Por ali passava o burro do moleiro, carregado com sacos de milho, centeio e farinha. Parava regularmente à porta de cada freguês sem precisar de aviso prévio do dono.

As aves de capoeira saíam livremente dos quintais e iam esgravatar o dia inteiro lá fora, desfazendo a bosta de boi em busca de pequenas larvas.

Vem o pito ou não vem o pito?”

Uma família com quintal minúsculo, que mal dava para plantar meia dúzia de couves, possuía uma galinha soberba de pescoço pelado com uma ninhada de pintainhos.

Outra vizinha tinha também uma garnisé com filhotes que andavam na rua. Um dia, um daqueles pintos (pitos, como diziam os autóctones) misturou-se com o bando do lado, em cujo abrigo acabou por pernoitar.

Já o céu estava estrelado, houve guerra na capoeira! O marido da moradora em frente chegou a casa já um pouco toldado pelos vapores de etanol.

Ao dar pela falta do galináceo recém-nascido, deu em implicar o serão todo com a mulher, que nem tinha culpa.

De vez em quando, visivelmente inconformado com a baixa nos efectivos, o homem assomava à janela e, na escuridão, repetia o mesmo protesto para a outra habitação, onde o sono já mandava entre a canalhada.

Mas vem o pito ou não vem o pito? – repisava, enquanto o filho mais velho, desacoroçoado, tentava pôr água na fervura.

Em redor da lareira, a gargalhada colectiva dos adversários era rija. Indomável, ainda hoje, quando vasculhamos a arca das recordações – relata o Ti Zé do Galho, com memória de elefante, enquanto o velho de Pedrógão, sempiterno galhofeiro que faz rir as pedras da calçada, poisa o saco de milho na varanda do amigo.

O viajante chega derretido da caminhada. Carregou ao lombo, pela enésima vez, em quase um século de vida, aquele saco famoso com que as mães metiam medo aos meninos que fugiam à escola ou roubavam uvas e nozes na quinta murada do conde.

O anfitrião faz uma cafezada para o amigo, que teve a amabilidade de trazer uma broa de milho amarelo para ambos comerem à dejejua, com presunto da salgadeira e uns púcaros de vinho branco a acompanhar.

Vim liquidar a pensão da leira, desta vez com atraso. O milho ardeu todo em junho. Tinha ainda meia arca com cereal do ano passado. Como já nem dentes tenho para roer côdeas de broa, vou assim pagar ao conde – diz o rendeiro.

No Urzal, o visitante nunca viu o turco São Nicolau, com vestes rubras, carregado de prendas para a garotada. Nem sequer renas, onde centenas de veados morreram no último incêndio.

O senhor Feio é agora da canhota, talvez este ano nem me queira nada… – murmura baixinho para o Ti Galho.

Palavra dada é palavra honrada, mas, lá no fundo, o velho de Pedrógão não acredita no Pai Natal.

Nota – dedico este conto de Natal a todos os municípios atingidos pelos fogos deste ano.