Coimbra  25 de Junho de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Costa Almeida

Maternidade: Movimento lança manifesto em prol da outra margem

13 de Junho 2018

*Cirurgião e professor universitário

 

Coimbra possui um grande passado e poderá ainda vir a ter um grande futuro, se no presente houver gente com visão e capacidade de decisão.
Durante 40 anos, esta cidade teve dois polos de Saúde, um centrado no hospital – universidade, outro no hospital – cidade, os quais competiam entre si e se completavam, na assistência, no ensino, na formação pós-graduada, conferindo a Coimbra as condições para ser considerada “capital da saúde”. Veio a fusão dos hospitais e a tendência tem sido acumular tudo num, esvaziando-se o outro.
Crê-se haver necessidade de criar uma maternidade nova, substituindo as duas existentes, e põe-se o problema do local da sua implantação na cidade. Uma maternidade tem necessidade do apoio de algumas especialidades médicas e cirúrgicas que se encontram em qualquer hospital geral. Já com um hospital pediátrico a relação é realmente ténue, uma vez que a obstetrícia é largamente coisa de mulheres adultas e os recém-nascidos da neonatologia, que faz parte integrante de qualquer maternidade. Parece, pois, consensual, que deva ser instalada na proximidade e em articulação com um hospital geral. Ora, seguindo a tendência para a acumulação, há quem a pretenda encavalitar na
área do Hospital da Universidade (HUC), em vez de a colocar na área do Hospital dos Covões (hospital-cidade).
Porquê não junto ao HUC? Para começar, por uma questão urbanística, que inclui, por um lado, uma notória e muito incómoda falta de estacionamento no e à volta desse hospital, já neste preciso momento, e para cuja tentativa de correcção, ainda por cima se for muito agravada com a junção de mais uma unidade, o Estado, ou a Câmara, ou todos nós, terão de desembolsar muitos milhões, e, por outro, mais uma vez, a implantação de toda a capacidade em Saúde da cidade numa zona central e já bloqueada ao crescimento, como acontecia com o velho Hospital da Universidade.
A alternativa é usar o outro polo de Saúde em boa altura criado na cidade, na margem esquerda do rio Mondego; por isso, de fácil acesso e com capacidade para crescer à medida do necessário, sem se ter de mudar tudo outra vez, caso a Saúde em Coimbra ganhe a dimensão que todos gostaríamos que ganhasse, até em termos internacionais. E num terreno totalmente grátis, sem qualquer encargo para os contribuintes. Para além de gerar o crescimento da cidade para a periferia, que o Hospital dos Covões e tudo o que o acompanhou já originou.
E depois há a questão técnica. O Hospital Geral dos Covões, durante 40 anos, assegurou todo o apoio necessário à Maternidade de Bissaya Barreto – a maior de Coimbra –, em todas as valências precisas para tal, e totalmente a contento. O que foi feito, entretanto? Foi-se esvaziando o Hospital Geral, deixando as suas enfermarias, a sua Urgência, as suas salas de operações e a sua Reanimação, que estão todas lá, francamente subaproveitadas. É isso que se pretende, em termos de gestão dos recursos de Saúde em Coimbra? Esvaziou-se um hospital e agora diz-se que não tem as valências necessárias?! Ou esvaziou-se para se poder dizer isso?!
Ora, a capacidade instalada está toda lá, está é subproveitada porque deslocaram os recursos humanos para o outro! Onde estão, por sua vez, subaproveitados… num hospital superlotado de doentes internados, doentes nas consultas e nas urgências, profissionais de saúde, visitas, bactérias, movimento, barulho… ao qual querem acrescentar outro edifício e mais doentes, profissionais, visitas, bactérias, com todo o perigo de infecções que daí advém. Mau sítio seria para dar à luz…
Não é, pois, um raciocínio correcto e razoável (para usar palavras menos traumáticas) da tal comissão técnica dizer que um dos hospitais não tem os meios de apoio necessários, quando essa situação é muito recente e resultou deles lhe terem sido retirados e transferidos para o outro! Mas a capacidade técnica está toda lá, instalada, só faltam alguns profissionais!
Basicamente, a escolha é esta: atrofiar tudo no mesmo bairro ou fazer a cidade expandir-se, precisamente numa das poucas coisas a que se pode agarrar para crescer – a Saúde. E na docência, pois o polo dos Covões tem contribuído muito, e continua a contribuir, para o ensino da Medicina e das Ciências da Saúde, contendo mesmo, em terreno seu, dois estabelecimentos superiores, e fulcrais, nessa área: Escola Superior de Enfermagem e Escola Superior de Tecnologias da Saúde.
Para além de o Instituto Nacional de Sangue, o Centro de Saúde de S. Martinho do Bispo, o Centro de Implantes Cocleares e o Centro do Sono também fazerem parte do seu polo.
Tudo isto é por de mais evidente. Só se engana quem quiser.
Esperemos que quem queira a Saúde em Coimbra de novo tolhida num «castelo», erguido no centro da cidade e a nova maternidade dentro dele, não leve a sua avante…