Coimbra  26 de Setembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Mata-se por dá aquela palha…

12 de Setembro 2018

O julgamento de três indivíduos, um dos quais guarda prisional, por espancamento de um jovem de 18 anos, cujos factos ocorreram em Montemor-o-Velho em 2016, durante umas festas da vila, começou, ontem, terça-feira, no Tribunal de Coimbra.

O derrube de uma cerveja despoletou a rixa. Como se uma cerveja e o seu derrame, de um copo ou de uma garrafa, pudesse valer a morte de uma pessoa na flor da idade. Como se qualquer coisita, como esta situação, pudesse ser a chama para matar alguém que seja. Como se umas palavras, por vezes, no calor dos copos, pudessem servir para se tirar a vida a este ou àquela.

Esta brutalidade e selvajaria do ser humano, por dá cá aquela palha, como sói dizer-se, não devia morar e ter assento numa sociedade adulta, séria, que presa a vida, que é solidária quando os incêndios arrasam tudo, quando sabemos acudir e quando somos portugueses, a maioria de nós, que rezam a Deus e prestam culto aos santos protectores das nossas santas terrinhas…

Este episódio, de uma gravidade extrema, sem limites de piedade de quem o praticou, matando, exercendo superioridade numérica – três contra um – e corporal, já que os arruaceiros eram possantes e de idades mais avançadas, não pode ficar, perante a nossa Justiça, por serem “primários” na acção, mas não o deixam de ser na atitude, na gaveta da “pena suspensa”.

Como dizia, e ainda hoje, um nobre advogado, numa das nossas cadeias de televisão, comentando o caso, não se pode colocar em liberdade quem violou, de forma muito violenta e hostil, a vida de um jovem, sob pena de outros actos – idênticos – vingarem e passarem a ser um denominador comum de uma sociedade, a nossa, que é pacífica e se tem sabido portar à altura, apesar de uma ou outra turbulência social, por força de épocas de míngua e de sacrifícios.

Não podemos tolerar que este tipo de cafajestes se perfilem em festas, em bares e em cafés, onde jovens, adultos ou pessoas mais velhas, procuram passar uma tarde ou parte da noite na cavaqueira, nos diálogos de amigos e nas tertúlias que vão animando as nossas aldeias, vilas e cidades do país real.

Para além do mais, um guarda prisional não pode, pela função e pela missão, ser um mau exemplo e ser um meio de discórdia e de desavença quando estala a bronca. Tem de ser, e acima de tudo, um elo conciliador e um servidor das causas nobres, porque o tempo dos carcereiros, de chicote e zagaia na mão, já se enterrou faz muitos e bons anos.

Se as nossas prisões, espaços de reintegração e de reinserção, têm deste tipo de produto humano, vai mal esse nosso sistema. É evidente que uma andorinha tresmalhada não mata a Primavera, mas pode deixar raios e coriscos e granizo que pode estragar a festa que, e genericamente, essa estação do ano traz no seu ventre, deixando florir os prados e despertando nas pessoas a felicidade para viver.

Que a Justiça seja dura para com estes três farsolas, que mataram sem mais e sem pinta de humanismo.