Coimbra  23 de Fevereiro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

Malabarismos em vésperas de eleições

3 de Fevereiro 2019

Estamos em período eleitoral e, por isso, as declarações altissonantes dos nossos governantes valem o que valem.

Estou a ter presente as declarações do ministro Pedro Marques, feitas à saída da mais recente reunião do Conselho de Ministros, a propósito do lançamento do concurso para a primeira fase do Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM).

O calendário, sempre optimista nestes contextos eleitorais, irá entrar por 2020 dentro para poder o SMM ser operado em 2021, ainda de modo faseado.

Também a estação ferroviária de Coimbra-B é alvo da generosidade deste Governo.

E, não sei bem porquê, perante tantos milhões, fiz um ponto de situação do estado da arte na ferrovia, também da responsabilidade deste simpático ministro, que gosta sempre de dar boas notícias, em todo lado onde se desloca.

Comecei por pensar que alguma da nossa Imprensa gosta, muitas vezes, de assinalar o tropo mais atrevido de alguns políticos, esquecendo o condimento mais substantivo das suas contradições por mais grosseiras que sejam.

Como se os leitores não tivessem o direito à informação, global e rigorosa , acerca do que os nossos governantes dizem e prometem (mas não fazem), sobre os desígnios da grei.

Alguns deles entram, até, no rol dos parcimoniosos disparates.

Por isso, a cada um as suas responsabilidades, assinalando-se a quota que lhes cabe no desempenho das suas funções ministeriáveis.

Neste caso, trata-se do desamparo do sector ferroviário e da responsabilidade pelo desprezo de incontornáveis elementaridades, que o responsável político pela área foi incapaz de encarar e combater, levando-nos a graves situações de verdadeira emergência.

Estive a ler, há dias, que dos 20 projectos que fazem parte do cadernos de encargos do Grande Plano da Ferrovia, anunciados, pasmai, em 2016 para realizar até 2020, oito, deles, já deviam ter sido inaugurados e 11 deviam estar em passo acelerado.

Pois bem, só há seis em obra, o que significa que dos 2,70 mil milhões de euros anunciados para modernizar os caminhos-de-ferro, apenas 158 milhões foram investidos, significando uma taxa de execução de apenas sete por cento.

Linha nova? Bola, como diria Jorge Jesus, o conhecido treinador de futebol. Zero, zero!

A população de Sines, de Évora e Beja – corredor Sines-Badajoz – os eleitores da sempre esquecida linha do Oeste e os interessados na electrificação da linha de Marco de Canavezes até à Régua, bem como da linha de “concordância” entre a Beira Baixa e a Beira Alta, para não falar, entre outras omissões, dos que vivem e trabalham na zona de Aveiro e Mangualde, todos eles não conseguem enxergar a construção de novas e prometidas linhas.

Nesta, como noutras áreas, a ineficácia deste Governo sobe ao monte Everest, obrigando os ministros, muitas vezes, a recorrer a imaginação e fantasia para disfarçar as evidências.

Há, até, cenas surrealistas, como há pouco aconteceu com o ministro Pedro Marques, que foram relatadas por alguma Imprensa (nacional e regional).

Vamos a elas:

O ministro e a sua comitiva foram, de viagem, para mostrar obra feita, num comboio eléctrico no troço entre Nine e Barcelos, querendo tapar a verdade com a peneira.

Pois bem, o grotesco da situação reside na circunstância risível de que o cabo de alta tensão,

sobre a via férrea, foi ligado exclusivamente para se fazer “aquele número” e desligado ao fim da tarde. Até hoje!!!

Vozes de «experts» na matéria chamam uma verdadeira tragédia ao que está a acontecer na

gestão desta infra-estrutura, abandonada por este Governo de forma cega e impensável apenas por tacticismo orçamental, resultante da opção pela cativação das verbas destinadas ao investimento em prol de um equilíbrio orçamental, que envergonhadamente não se assume.

O que se quer é simples: acabe-se com o teatro político, com anúncios virtuais de obras de milhões e milhões, quando parece ter começado a “não haver dinheiro para mandar cantar um cego”.

E com esta encenação constante, o XXI Governo está a ser apanhado na curva por cidadãos, que têm massa crítica e não gostam de ser enganados.

O Governo não cumpre, nesta como noutras áreas… Ponto.

A verdade é esta. Falta energia, falta empreendedorismo, falta vontade política.

Temos um Executivo cansado, porque mesmo quando há fundos disponíveis, como já se disse, as taxas de execução, na “Ferrovia 2020”, três anos após o seu lançamento, são baixíssimas, ficando um pouco abaixo de 10 por cento.

E, neste caso, não dá para chamar José Sócrates e a bancarrota, Passos Coelho ou a «troika».

O quadro negro da ferrovia não resiste ao teste dos factos e do calendário.

Todos, todos eles, são, só e só, imputáveis a este Governo de António Costa.

É que ninguém consegue convencer os lúcidos cidadãos, nem mesmo o mágico Luís de Matos, que há obras a começar, ou já feitas, quando elas não passaram ainda do papel.

Vai haver eleições e as pessoas possuem montes de razões para pensar que este Governo tem falhado. Elas querem soluções reais e não aparentes.

Perante este histórico, cada um pense o que achar por bem…

 

(*) Ex-vereador do PSD na CMC