Coimbra  25 de Fevereiro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

Lembrete: O congresso, a educação e a democracia

5 de Fevereiro 2018

1 –  Os congressos dos partidos são reuniões periódicas a que assistem, sobretudo, os delegados territoriais eleitos para o efeito, onde se debate, a nível programático e estratégico, a situação política do país e da associação cívica.

A minha última e recente experiência, neste domínio, foi especial, dado que um imprevisto do meu amigo Norberto Pires fez, por generosidade dos outros delegados, transferir para mim a orgulhosa responsabilidade de poder apresentar uma moção estratégica que Coimbra levava, para reflexão, a um concave do PSD (ainda com Passos Coelho), após horas e horas de trabalho e debate.

A água vai passando sob as pontes, contaminada ou não, e, entretanto, aconteceram eleições, há escassos dias, para o lugar de presidente do Partido Social-Democrata, num contexto politicamente inabitual, que todos conhecemos.

2 – E é dentro deste contexto que, este mês, surge outro Congresso do PSD, com Rui Rio a empunhar a bandeira da social-democracia.

Ora, um dos grandes desafios de Rui Rio será a definição de um programa capaz de despertar a consciência social e política de Portugal.

Mas, também, que seja aceite pelas bases, que desde a primeira hora o acompanham para se poder contaminar todo o partido e ainda novos votantes, que naveguem as ondas da indiferença perante o sistema político, ou em áreas políticas pouco distantes do “Centro” e que podem ser entusiasmados a pensar para lá do momento.

Resulta daqui, desde logo, a superior importância deste Congresso, onde cumpre definir as linhas chave do PSD e as respostas que se devem ter, desde já, para as consequências desta política distribuitiva, sem aparente sustentabilidade.

Portanto, todos vamos esperar que os órgãos que saírem deste conclave saibam assumir as suas responsabilidades, através da defesa da democracia interna, límpida e transparente, longe das velhas práticas do mundo da política e partir à conquista do país.

Aliás, muitos apoiantes de Rui Rio, onde me incluo, foram seduzidos pela convicção de que ele irá fazer política de modo diferente, dando nova roupagem à social-democracia e ao PSD.

Tudo isto tem de ser rapidamente concretizado para a mensagem poder resistir e engrossar.

Rio sabe disto. Sabe que estar longe do poder é um tremendo desafio com grande desgaste, dado ter de lutar em várias dimensões socio-politicas, nomeadamente face aos complacentes “media”, que fazem eco e cantam hossanas sempre que a «geringonça» “mexe”.

3 – Rio vai ter pela frente, em cada dia, o desafio de reinventar o PSD como partido político alternativo, mudando a percepção de muitos portugueses de que não vale a pena “fazer ou participar na política” neste momento tão complexo.

Pois bem, esse afastamento real de tantas dezenas de milhares de cidadãos eleitores tem uma preocupante expressão nos níveis de abstenção crónica, ou outra, que, eleição após eleição, não desce.

Contudo, não deixa de ser curioso constatar, para quem anda nos autocarros, nos táxis, frequenta cafés, ou alimenta tertúlias, uma firme vontade de todos escrutinarem os protagonistas políticos, envolvendo-se, com calor, até, na apreciação crítica das várias situações que os políticos criam, apesar de dizerem não ao exercício do voto.

E, se lhes perguntarem o porquê desta aparente contradição e do seu abstencionismo militante, a resposta que mais está na ponta da língua é a de que os actores políticos não merecem o seu precioso tempo para os eleger; que não são os cidadãos que escolhem os deputados; que se vota em listas fechadas feitas pelos aparelhos centrais, cujo único critério é a confiança política dos líderes concelhios/distritais e a bênção do ”chefe máximo”.

Querem, ainda, que se acabe com o sistema de biombos, que se eleja a meritocracia assente em dinâmicas abertas, participadas e transparentes, que se altere o sistema eleitoral, trazendo mais proximidade, energia, ambição, inovação, novas ideias e ventos de grande motivação.

4 – Este distanciamento entre os cidadãos e as instituições democráticas é perigoso, preocupante e crescente.

Os valores que regem a vida republicana talvez comecem a ser postos em causa e isso pode significar uma fragilização das instituições democráticas, criando um adormecimento da própria democracia

É inadiável criar medidas capazes de abanar o abstencionismo e os movimentos de passividade e desesperança.

É preciso ligar o despertador, no máximo, para evitar que mais e mais desistam da participação política e, pelo contrário, passem a acreditar na utilidade do seu voto.

Ora, nesta onda cada vez mais preocupante, os jovens sem formação aparecem, em crescendo, a garantir futuro a movimentos anti-partidos. Isso significa que o combate tem de passar pelo aumento da atractividade da educação, pela melhoria urgentíssima da sua socialização.

5 – Só a educação poderá fazer o milagre de esses jovens sentirem que vale a pena

comprometerem-se com a política e o interesse público, através da eleição de pessoas genuinamente sensíveis à mudança.

Só ela poderá levar a que esses jovens admitam ser possível que o actual sistema político se possa reformar por dentro.

Só cidadãos esclarecidos, interessados e intervenientes podem alterar este preocupante quadro, onde os jovens têm uma activa e crónica pegada.

É que só a educação permite qualificar a qualidade crítica que existe em cada potencial eleitor; só ela permitirá perceber e fazer a análise, a comparação de programas, ideologias, visões do mundo, do papel do Estado social, da produtividade, da reforma fiscal, etc, etc.

Por isso me entusiasma a ideia de que uma das inadiáveis apostas terá de ser na educação, que irá permitir robustecer o nosso “Centro” político, porque sem ele a nossa democracia fica coxa e a classe média deixa de ser uma saudável oportunidade e atracção.

Vale a pena investir mais, mais e mais na educação, cumprindo a Constituição da República, sem complexos, através do ensino público, privado e cooperativo, cada vez mais e mais gratuito.

Não tenho dúvidas de que ela é uma trave mestra do nosso país, do seu desenvolvimento e do próprio futuro. Será sempre uma questão estrutural.

Vale bem a pena dar a máxima centralidade à educação, dando-lhe atenção e espaço no próximo Congresso do PSD. Estamos a falar da própria democracia como a conhecemos.

Esta questão seria, por isso, uma boa questão para ser abordada através de uma “competente moção” de um grupo de delegados.

Pelo andar da carruagem, o “tema” escapou-se-lhes.

Mas, nesta área, Coimbra tem especiais responsabilidades…

Daí o lembrete.

(*) Ex-vereador do PSD na CMC