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António Barreiros

Hospital dos Covões: a visão inovadora de Bissaya

25 de Maio 2018

Vem a propósito pelas informações que nos chegam sobre a falta de cirurgiões, e não só, no Hospital dos Covões.

O Prof. Bissaya Barreto foi um cirurgião de mão cheia, um médico atento, um professor qualificado, um homem de calibre científico, um filantropo e um cidadão de bem que soube servir o país, a região Centro e a cidade de Coimbra de uma forma invulgar.

Não me interessa explorar nesta crónica, até porque não o iria desmerecer, apesar do mais e de tudo quanto se diga, o seu posicionamento político. Também não pretendo definir os traços mais exuberantes da sua obra e da sua vida. Fá-lo-ei, brevemente, porque é merecido e justo.

Vou acertar agulhas na grande obra, ora desmantelada por artífices partidários e sem conhecimentos históricos, com que essa ilustre figura soube presentear Coimbra. Sei que vou ter críticas, ou que algumas me podem ser arremessadas por certos senhores que nunca viram de bom grado a criação do Centro Hospitalar de Coimbra, onde se inseria o Hospital da Colónia Portuguesa do Brasil, o qual veio a tomar mais tarde o nome de Hospital dos Covões.

Bissaya, entrosado na plenitude da vida universitária de Coimbra, de que, aliás, era seu docente, pontificando a sua grande projecção e saliência como pessoa e médico, principalmente na Faculdade de Medicina e, também, no Hospital da Universidade onde era insigne cirurgião, apercebeu-se, pela sua invulgar inteligência, sabedoria e experiência pessoal e profissional, que nessa unidade de saúde e assistência médica presidia um ambiente de oligarquia de professores catedráticos.

Esses mandavam, comandavam e dirigiam a Faculdade de Medicina e estendiam a sua carga energética de poder aos Hospitais da Universidade de Coimbra. Quase subjugavam os médicos que, por decisão pessoal ou de âmbito de carreira, se deixavam ficar pela prática da Medicina sem seguirem a via académica, isto é, sem ascenderem ao professorado e, consequentemente, à prestação de provas para doutoramento e, de seguida, para catedráticos.

Ao criar o que ficou a ser conhecido por Hospital dos Covões e, também, podemos agregá-lo nesta dinâmica, à Maternidade com o seu nome e ao Hospital Pediátrico, perfazendo o universo do CHC/Centro Hospitalar de Coimbra, abriu os horizontes e os caminhos profissionais a muitos médicos que, mesmo não pretendendo subir ao patamar da vida académica, preferiam servir a Medicina sem se alcandorarem aos pedestais de docência. Cada um no seu lugar, mas com respeito e por respeito, a colegas e à profissão.

Em boa hora o fundou, porque foram muitos os médicos que serviram com garbo, muito denodo e excelente mérito a causa nobre do sector que abraçaram, donde se destacaram dezenas deles que, e nas instalações dessa unidade de saúde, pertença do CHC, se evidenciaram, se motivaram, se foram aperfeiçoando na arte e acabaram por, com estudo e investigação, sobejamente reconhecida, descobrir novas formas de curar doentes.

Não pode ser desvalorizado

O Hospital dos Covões teve esse mérito, o de deixar voar gerações de médicos que escreveram a história da Medicina em Coimbra e a de Portugal. Escrevia alguém, recentemente:”o Hospital dos Covões não pode ser desvalorizado, esvaziado e aniquilado desta forma. São décadas de um trabalho de excelência que estão a ser destruídas há já perto de oito anos” (Carlos Cortes). E para ajudar ainda mais: O Serviço de Urgência do Hospital dos Covões, que integra o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), “está sem capacidade de resposta nalguns turnos de cirurgia”, denunciou a Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM)”. E adianta: “Já há dias em que a escala é constituída apenas por um especialista e um interno. E, durante a noite, apenas está escalado um cirurgião”, afirma o presidente da SRCOM, Carlos Cortes. Segundo a SRCOM, o Colégio de Cirurgia da Ordem dos Médicos estabelece um número mínimo de três especialistas na equipa de cirurgia geral na urgência.

Ora, a junção de todas as Unidades Hospitalares no que, agora, com pompa, se apelida de Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, agregando muitas especialidades que os Covões detinham, não se mostrou tarefa fácil – houve até desavenças e mal entendidos – porque de duas escolas diferenciadas se tratava. Dois conceitos díspares. Duas filosofias de trabalho sem paralelo interpares. Posicionamentos de chefias e de formas de agir em conflito. A metodologia dos Serviços dos Covões não era a que se pratica(va) nos antigos HUC ou no actual edifício-sede do CHUC. Nem coisa que se possa parecer.

Acertar o passo, entre um e outro hospital, pós integração não foi, e até hoje, consensual, junto dos principais operadores da saúde – médicos e enfermeiros. Não sei se a qualidade não se terá esbatido. Só o futuro poderá, entre palavras de uns e diálogos de outros, porque não consta, infelizmente, para memória futura que este ou aquele médico ou enfermeiro tenha vindo a terreiro público deixar estórias desta mutação tão singular quão simplista… trazer a verdadeira história desse ajuntamento, feito um pouco a pontapé.

Bissaya, quer se queira quer não, soube separar as águas – a via académica e a médica, ainda que ambas do mesmo ramo científico. Conseguiu-o determinado e de forma eloquente. E conseguiu concitar, nesses dois pólos, completamente distintos em todas as suas dimensões e valências, formas de agir e de se estar perante esse bem precioso que é a saúde. Restituir a vida ou restabelecer aos doentes a vitalidade e as benfeitorias corporais que possam dar forças para prosseguirem os seus caminhos de vida tiveram, em Coimbra, duas promissoras e distintas Escolas. Podem vir a ter, de novo, assim a política o queira, a nosso bem… Já se fala que a nova Maternidade poderia ser implantada nos Covões. Saúdo a ideia.

Uma coisa, pelo menos para mim e na minha modesta opinião é certa: por mais que venham dizer o contrário essa integração foi executada, como é comum afirmar-se, e na gíria, à podoa…