Coimbra  18 de Agosto de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

História de Coimbra: Processo em permanente (re)construção

18 de Maio 2017

 

17 - OP João Pinho Casa das Talhas

Rua de Fernandes Tomás – em primeiro plano, à esquerda, a Casa das Talhas

A História da cidade de Coimbra é um processo permanente de construção e reconstrução. É verdade que se têm produzido, ao longo dos séculos, diversos trabalhos académicos, de maior ou menor rigor científico, a maioria de origem universitária, que para diferentes períodos e cronologias acrescentaram ou retiraram algo aos conhecimentos dados como adquiridos. No mesmo sentido têm sido de suma importância os trabalhos de acompanhamento e/ou prospecção arqueológica, em especial os desenvolvidos ao nível municipal.

Por outro lado, sei que nos arquivos, mais do que nas bibliotecas, se encontram mananciais de informação por explorar, dada a sua inacessibilidade, por factores diversificados, desde o estado de preservação passando pelo déficit de catalogação e inventariação, questões só resolvidas quando um dia se estabelecer uma verdadeira política cultural de incentivo ao desenvolvimento dos arquivos locais e regionais, públicos e privados, que venha superar a escassez reinante de recursos humanos e tecnológicos.

No processo de permanente construção da História da cidade e região acontecem, de quando em vez, boas surpresas, trazidas não da pesquisa e reflexão teórica, mas sim de dados colhidos no terreno. Foi o caso dos achados na Sé Nova de Coimbra, designadamente documentos inéditos relacionados com a expulsão da Companhia de Jesus (abrangendo os séculos XVI-XVIII).

Uma descoberta casual, durante as obras de restauro e limpeza dos altares da Sé Nova. Segundo depoimento de Margarida Miranda à comunicação social, investigadora da FLUC, trata-se de «uma descoberta singular, oculta durante mais de 250 anos. Foram encontrados dois códices, um conjunto de cartas e uma bolsa com embrulhos cozidos a pano e identificados com o nome de “António Vasconcelos e os títulos dos escritos”».

O acervo encontrado, em processo de inventariação e em vias de ser digitalizado, inclui «documentos fundacionais do séc. XVI, de Inácio de Loyola, de São Francisco Xavier, de João de Polanco, cartas dirigidas ao mestre Simão Rodrigues, ao provincial e ao reitor do Colégio de Coimbra», adiantando, ainda, que há um manuscrito do padre António Vieira, «muito raro e singular, que vai despertar muito interesse, e um códice com teses de filosofia ligadas ao padre Francisco Soares Lusitano». O último grupo de textos, já do séc. XVIII, acrescenta a investigadora, é um conjunto de cartas. A correspondência activa e passiva é «parte do espólio pessoal do jesuíta a quem devemos o acervo, António de Vasconcelos», e corresponde a memórias sobre o cativeiro, o cerco, e a expulsão da Companhia de Jesus, «que ele conseguiu salvar da biblioteca e esconder ali».

Poucos dias depois desta descoberta surpreendente, a CMC tornava públicos os interessantes achados arqueológicos na rua de Fernandes Tomás, em prédio de habitação, situado na zona antiga da cidade, conhecido como Casa das Talhas. No âmbito de processo de reabilitação, os estudos desenvolvidos por técnicos municipais identificaram parte da Muralha, uma Torre pré-islâmica e uma quantidade de talhas antigas encastradas num aparelho de alvenaria (40 na subcave, uma na cave e uma no rés-do-chão). Parte da Torre assenta sobre uma estrutura com revestimento em opus signinum (hidráulico) que aponta para a época romana.

Que significado têm estas descobertas? No primeiro caso, abre-se espaço para que se reescreva parte da história da Companhia de Jesus; no segundo, acrescentam-se dados à época romano-árabe. E ambas confirmam, paralelamente, que a História, neste caso a da nossa cidade é, não só um processo evolutivo e inacabado, mas também fragilíssimo aos olhos de quem entende a ciência histórica como produto acabado.

(*) Historiador e investigador