Coimbra  24 de Março de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

F. Simões Ribeiro: a partida de um fervoroso “coimbrinhas”

26 de Janeiro 2018

Foi Empresário e era um Homem Singular…

O Ribeiro, com o lhe chamava dada a proximidade que mantive com ele em mais de 30 anos, teve um trajecto peculiar. Aprumava-se como um fervoroso “coimbrinhas”. E assumia essa postura, porque sentia e vivia Coimbra.

Mas, e num curto depoimento, não cabe dar conta de todo o seu percurso. Prefiro situar-me no traço pessoal e profissional do Ribeiro.

Respeitava e sabia estar pela forma como cumprimentava, como se apresentava – cortez e educado – como falava, como saudava as pessoas, apresentando-se cordial e colaborante.

Percebeu, depois de ter aberto uma das perfumarias – Galera – mais prestigiadas do país, na época, antes do 25 de Abril de 1974, na praça de 08 de Maio, na esquina com a rua de Visconde da Luz, que a medalhística, já com tradição em Coimbra, pela mão do dr. José Pimenta, radiologista nos Covões e proprietário da Medalhística do Centro, podia ser um caminho a seguir.

Não o desmerece o facto de ter contribuído para a instalação, no edifício ao fundo do Parque, da delegação do MIRN, passados meses sobre o Verão quente de 75. Trouxe a Coimbra o general Kaúlza de Arriga, um operacional do tempo colonial. Por se ter afirmado apoiante do MIRN, Ribeiro viu uma das montras da sua perfumaria várias vezes vandalizada. Todos o sabíamos: ele era uma figura de direita, mas não vem mal à nossa sociedade plural esse contorno político.

Começou a ter apetência para esse segmento das artes, porquanto, e ao frequentar o café de Santa Cruz, dava de caras com mestre Cabral Antunes que ali passava os finais das tardes.

Conhecido do dr. José Pimenta, o qual já havia criado a Medalhística do Centro e se irmanava com Cabral Antunes em obras de medalhística, algumas célebres, Ribeiro acaba por formar a sua própria empresa no final da década de 70, a reconhecida Medalhística Lusatenas.

Mandou executar centenas e centenas de medalhas, projectando Cabral Antunes, artista que o Prof. Doutor Bissaya Barreto havia descoberto numa oficina no Terreiro da Erva. Com amizades que foi conquistando ao logo dos seus passos de vida, Ribeiro soube impor-se pela ousadia e pela qualidade dos seus trabalhos, em todo o país e, também, no estrangeiro. Cabral Antunes foi o seu mais proeminente escultor. Mas, e quando o Clube da Comunicação Social de Coimbra descobriu, em concurso público, para implantar o busto desse Mestre, o artista plástico Alves André, de Portunhos/Cantanhede, iniciativa à qual Ribeiro deu um contributo exemplar para o colocar de pé, este amigo aproveitou o seu talento. O mesmo fez com Jorge Coelho, do Porto.

Fernando Simões Ribeiro esteve ligado a outras causas nobres da cidade, como à ACIC, aos Bombeiros Voluntários e às Criaditas dos Pobres, só para recordar algumas.

A sua figura, de franzino, o seu cigarro ao canto da boca, o seu sobretudo azul escuro que o protegia do frio dos invernos, o seu carro de eleição – boca de sapo, Citroen – a sua voz tímida e baixa, a sua pronta resposta para ser mecenas de projectos a favor dos mais desprotegidos e o seu amor a Coimbra, fazem dele uma personalidade que ficará nas páginas da cidade.

Ao Ribeiro, com quem privei de perto e tive, também, uma ou outra discordância, mas que não contribuiu para atitude menos humana, e nesta hora da sua partida terrena, quero deixar uma saudação de estima e de saudade. Descansa em paz.