Coimbra  13 de Dezembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Estranha forma de valorizar Coimbra

10 de Agosto 2017

13 - O estranho rosto de Cindazunda

O Partido Socialista saiu, finalmente, da trincheira em que andava enfurnado. Apresentou a sua sede, o outdoor e o slogan de campanha: «Valorizar Coimbra». Manuel Machado, cabeça de lista, surge com aspecto cansado e sisudo, consonante com o slogan surpreendentemente idêntico ao das autárquicas de 2013.

Sem qualquer referência ao desejo de continuar a trilhar o caminho que vem do passado, o presidente, economista, com laivos de historiador, deixa-nos na dúvida que para muitos constitui uma certeza: então nos quatro anos que findaram não conseguiu valorizar Coimbra e suas freguesias? Precisa de uma segunda oportunidade como sucede em certos casamentos para demonstrar o seu amor por Coimbra?

Quase em simultâneo, a força política no poder da edilidade conimbricense apresentou a última maravilha de arte urbana: a escultura de Cindazunda, figura de mulher que, segundo certos historiadores, surge no brasão de Coimbra.

Sem colocar em causa o valor do escultor, que ostenta vários prémios e uma carreira invulgarmente sólida no panorama nacional e internacional, convenhamos que a representação da princesa sueva, baseada, deduzo, em critérios da psicologia do autor e do encomendante, deixa muito a desejar… do pescoço para cima! Quem não conheça a lenda e, de repente, se veja diante da escultura, ficará na dúvida se o rosto é feminino, masculino ou híbrido. Vá, senhores decisores, expliquem devagarinho esta opção para os gentios perceberem…

Não satisfeito com a anedota do rosto da Cindazunda, filiado por certo na vereda que conduziu ao repuxo deslustrante do rio Mondego, o nosso presidente veio içar outra bandeira anedótica: atenção que o espaço em que se implantou a princesa não é uma rotunda, mas sim uma praça, advertiu, perante jornalistas e colaboradores presentes no acto.

Este preciosismo fez-me estremecer e procurei o esclarecimento cabal junto do dicionário mais próximo para confirmar que rotunda é (imagine-se !!!) sinónimo de «praça ou largo de forma circular»… (Vide Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, Vol. II, p.3283).

Neste contexto, torna-se difícil acreditar nos intentos de valorização da História e memória da cidade. Recorde-se, a este propósito, que no antigo largo do Arnado, entretanto promovido a praça e a rotunda, existiu durante séculos a Capela do Senhor do Arnado, demolida em 1936, mas com origem num cruzeiro de caminho referenciado em documentos do séc. XVI. Não seria este o momento apropriado para lembrar tal facto perpetuando-o de alguma forma na nova estrutura?

Andava a meditar nestas questões quando a Comissão Concelhia do Partido Socialista nos brindou com a apresentação da lista candidata à CMC, a qual de forma inesperada nos trouxe duas matérias de reflexão para tempos de veraneio:

– A primeira, com a manutenção da incompreendida vereadora da cultura em 5.º lugar, quando já estrelavam no firmamento os foguetes da promoção a 3.º e, para alguns mais seguidistas, o espumante da vice-liderança. Esperavam os agentes culturais da cidade outra decisão, mais drástica e em prol dos interesses da cidade. Porém, os 60 por cento de militantes presentes ao acto revelaram misericórdia e concórdia – que teriam a dizer sobre este assunto os 40 por cento de ausentes?

– A segunda com a entrada directa para 3.º lugar de alguém com trajecto profissional similar à anterior vice-presidente, que ficou na História da política municipal pela ousadia de desafiar a real feitoria da praça de 08 de Maio. Como advertiu Karl Marx, é preciso ter muito cuidado quando a História se repete.

Tivesse o PS resolvido estas duas questões à moda antiga e estou certo que meia vitória eleitoral estaria no saco. Assim, teremos vindimas até ao lavar dos cestos, pelo menos, nas freguesias rurais e periurbanas, onde o estado das uvas parece adivinhar excelentes colheitas.

(*) Historiador e investigador