Coimbra  23 de Setembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Ribeiro Mondego

Essa figura ímpar do Urbano Duarte, o cónego

9 de Fevereiro 2018

Leio que um grupo de ex-alunos do cónego Urbano Duarte vai assinalar o centenário do seu nascimento no dia 21 de Fevereiro próximo, data em que se encerra o ano que perfaz essa efeméride temporal.

Fui aluno desse padre, professor, pedagogo, mestre, orador e jornalista. Guardo-o vivo na minha memória. Marcou-me. Burilou-me para o meu futuro. Escavou-me o trilho. Amparou-me. Aconselhou-me. Abriu-me horizontes. Deu-me guita e soltou-me. Incentivou-me. Soube, a tempo, colaborar e ajudar. Mas deixou-me ter o meu traço de personalidade.

O encontro com ele foi uma benesse. Foi benfazejo. Cresci. Aprendi. Tornei-me mais homem. Desembrulhei dúvidas da minha fé. Percebi melhor a minha caminhada. Incentivou-me a prosseguir com o meu sonho de vida, aliás, o que cumpri com satisfação e estou convicto de que soube honrar o que de melhor me ensinou.

Urbano foi director do CADC. Foi pregador na Sé Nova. Director, durante mais de 25 anos, do jornal diocesano “Correio de Coimbra”. Professor de religião e moral no Liceu de D. João III e na Escola Brotero e, ainda, na Escola da Mealhada.

Não era um sacerdote qualquer, porque tinha talento, uma cultura invejável e tinha depósito intelectual. Estava fadado para lidar com a malta nova e, também, para perceber os avanços da Igreja Católica, pós Concílio Vaticano II. Era um iluminado, assim como o cónego Manuel Paulo. A Diocese de Coimbra, com a morte de um e de outro, perdeu dois baluartes.

Urbano, como já alguém o definiu, de forma ajustável, era teatral e gestual. Não era pessoa para se acomodar. Nunca se deixou abalroar. Jamais foi homem de fretes. Independente e sereno, apaziguou, amou, respeitou, tolerou, compreendeu e aceitou os outros.

Impunha-se com essa forma de linguagem. Mas condimentava-a com adorno facial e de olhares. Ressurgia, sempre que dialogava, em qualquer lugar, a sua espontaneidade, a sua densa cultura, a sua rochosa intelectualidade, a sua frondosa expressividade, a sua profunda fé e a sua humanidade.

Urbano era um comunicador nato, pujante, envolvente e sabia estontear quem o escutava. Tenho histórias e estórias com ele que davam um livro…

Penso, como outros, aliás, como o abordámos um destes dias no decorrer de um almoço em Coimbra, que ele percebia o encanto do seu figurativo e que retirava partido, no bom sentido, dessa sua imagem. Não foi, e por mero acaso, que se tornou um orador dos maiores.

Urbano usava o teatro, até nas palavras, porque dominava na perfeição a sua língua-mãe, para escrever a sua crónica semanal no “Correio de Coimbra” – “Sintomas” – textos que se devoram como quem mastiga, saboreando, o maior dos manjares ou bebe o vinho, empastelando-o na boca, para sorver as mais benditas castas portuguesas.

Urbano soube que a sua pose humana, teatralizada e fermentada com a gestualidade dos seus braços que polvilhava com olhares discretos mas mensageiros, valia uma presença magnânima, luzidia, esplendorosa, apelativa e reconfortante.

Sem pretender más interpretações, bem antes pelo contrário, Urbano Duarte era uma figuraça. E foi ímpar. O seu estilo pessoal, humano, de padre, de professor, de pedagogo, de mestre e de jornalista vai ser difícil de imitar. Existem homens, como Urbano, que não se repetem e, infelizmente, não se transfiguram para o presente. Gostaria que, e pelo menos, não deixássemos que a sua Obra e a sua Vida fosse apagada pelo tempo. Esta evocação pretende ser um pequeno apontamento para isso e disso. Para que se projecte no tempo e no futuro.