Coimbra  14 de Novembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Em tempo de vindimas: A galga da Fujaca (entre Botão e Pampilhosa)

11 de Outubro 2018
Op João Pinho Galga da Fujaca

A zona da Fujaca, entre Larçã e Pampilhosa

A tradição popular portuguesa encerra aspectos lendários, sobrenaturais e misteriosos tais como: tesouros por descobrir do tempo das ocupações romano-árabes e anglo-francesas; mouras encantadas habitando em grutas, penedos ou castelos; sítios de medo, nomeadamente, nos cruzamentos de antigos caminhos onde aparecem almas penadas; criaturas mágicas como lobisomens ou galgas – são apenas alguns dos muitos exemplos conhecidos.

Nos últimos anos tais aspectos têm merecido uma cuidada análise de estudiosos ou simples curiosos, procurando conhecer, inventariar e sistematizar a informação dispersa que corre pelo todo nacional.

Nas várias obras que publiquei nos últimos 20 anos centradas na história das freguesias, procurei inserir todos os elementos que a este respeito fui recolhendo, embora algumas carecessem de demorado estudo e cuidada análise que deixei para momento mais oportuno.

Tal é o caso da lenda da Galga da Fujaca, que me foi narrada no final da década de 90, por naturais dos lugares de Larçã e Paço, e que procurei aprofundar quando em 2002 entrevistei pessoas já com provecta idade para a monografia da Freguesia de Botão.

Por Fujaca se compreende, na actualidade, a extensa recta de mais de dois quilómetros que une a povoação de Larçã (Freguesia de Botão, Município de Coimbra) à povoação da Pampilhosa (sede de freguesia, Município da Mealhada). Sendo difícil delimitar toda a área original do microtopónimo Fujaca, sabe-se, porém, que o mesmo corresponde desde o séc. XVIII, a um centro agrícola de forte pendor vinhateiro e a zona de exploração de pedra.

A galga entra na história da Fujaca no âmbito de uma vindima em meados dos anos 60. Nos finais de um Setembro quente e instantes antes de o sol se pôr, estando os vindimadores a arrumar as suas alfaias agrícolas, foram surpreendidos por uma criatura, monstruosa: um cão de porte excepcional, para uns, uma ave gigante, para outros – que de forma ameaçadora investiu, grunhindo, contra os presentes, lançando o caos antes de desaparecer no meio da extensa vinha, na direcção dos caminhos da Vera Cruz, próximo da Pampilhosa.

O intento da criatura cingiu-se, aparentemente, a intimidar ou a afastar a presença humana da área envolvente, uma vez que ninguém foi directamente atacado ou ficou ferido. Era voz corrente entre os vindimadores que havia quem soubesse da existência daquele bicho, por ter dado sinal de si em outras circunstâncias, e que o ataque se devia a um acto de defesa natural, por ter nas proximidades o seu ninho.

Acredito que, na actualidade, pouca gente tenha ouvido falar da Galga da Fujaca mas sei que pelo país subsistem testemunhos similares, como é bom exemplo a Galga de Riachos (Golegã).

(*) Historiador e investigador

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