Coimbra  21 de Setembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Do largo de Sansão a praça de 08 de Maio

4 de Maio 2017

21 - OP J Pinho Praça 8 de Maio 1900

21 - OP JPinho Praça 8 de Maio anos 90 (DR)

 

21 - OP JPinho Praça 8 de Maio

A 08 de Maio de 1874, decorreu o auto solene de inauguração da praça de 08 de Maio, numa cerimónia iniciada nos Paços do Concelho e que culminou com o retirar das cortinas que cobriam a placa alusiva ao novo topónimo. Dava-se assim cumprimento ao desejo da comissão executiva encarregada de promover o aniversário da entrada das forças liberais na cidade, a 08/05/1834, e ao alvará do Governo Civil de 05/05 que autorizava a mudança de topónimo: de largo de Sansão para praça de 08 de Maio.

O registo do auto solene, à guarda do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, é elucidativo do objectivo e simbolismo do momento, que pretendia acima de tudo evitar o esquecimento: «…um nome que recorda a epocha da intolerancia e terror, em que alli foi collocada em um poste a cabeça de Victorio Telles de Vasconcellos, e ao mesmo tempo se perpetuasse a memoria do dia em que as forças liberaes do heróico Duque da Terceira ahi desfilaram ovantes».

Este momento, apesar de relevante, foi apenas mais um na história do espaço, que durante séculos se designou como largo de Sansão, topónimo que derivava da existência de uma fonte com tal invocação, e que surge em documentos desde o séc. XV.

A fonte ou chafariz era ainda visível em 1819, assentando sobre o seu pedestal quadrangular, a estátua do herói bíblico Sansão, atribuída ao imaginário Manuel Fernandes e datada, pelos estudiosos, de 1592. Esta obra, articulava-se cenicamente com outro chafariz, dedicado a S. João, também ele desaparecido, este situado a Sul e o outro a Norte da praça.

Em 1820, a fonte ou chafariz de Sansão foi gravemente danificada, ao ser atingida por umas traves transportadas em carro de bois, mantendo-se, com «escândalo público» e estorvo ao trânsito até 1876, ano em que foi demolida, no âmbito das obras de construção dos novos Paços do Concelho de Coimbra.

Local central e público, pujante de alma, de História e de estórias, foi escolhido ao longo dos séculos para as mais diversas homenagens e manifestações públicas: quebra dos escudos, por morte de D. Pedro II; espaço de eleição aquando da visita do Marquês de Pombal, em Setembro de 1772; manifestações estudantis contra o Estado Novo; festividades do 25 de Abril e 1.º de Maio; recepção a Mário Soares aquando da Presidência Aberta em 1990; cenário de feiras e manifestações desportivas e culturais.

É um dos principais largos da cidade de Coimbra. De forma trapezoidal, desenvolve-se em frente da Igreja de Santa Cruz e nele confluem alguns dos mais antigos e característicos arruamentos da “Baixinha”: rua de Martins de Carvalho, rua de Visconde da Luz, rua do Corvo, rua da Louça, rua da Moeda, rua Direita, rua da Sofia e rua de Olímpio Nicolau Rui Fernandes.

A praça foi sendo, ao longo dos séculos, reformada, urbanisticamente, datando as últimas intervenções de fundo dos anos 1993-1997, segundo projecto de Fernando Távora, que devolveu à fisionomia da praça a sua cota original.

(*) Historiador e investigador