Coimbra  17 de Novembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Do Dia de Todos-os-Santos ao Dia de Finados

2 de Novembro 2017
18 - Opinião Joao Pinho Todos os Santos

Todos os Santos de Fra Angelico, 1423-1424 (National Gallery, London)

 

Ontem foi dia da solenidade de Todos-os-Santos, em honra de todos os santos e mártires, celebrada pelos crentes de muitas das igrejas da Religião Cristã. A Igreja Católica designa a Festa de Todos-os-Santos a 01/11, seguida pelo dia dos fiéis defuntos a 02/11.

Sabe-se que a origem da solenidade de Todos-os-Santos remonta aos finais do segundo século, quando professos cristãos começaram a honrar os que haviam sido martirizados por causa da sua fé e, achando que eles já estavam com Cristo no céu, oravam a eles para que intercedessem a seu favor.

A comemoração regular deve-se ao Papa Bonifácio IV que dedicou, em 13 de Maio de 609 ou 610, o Panteão (o templo romano em honra a todos os deuses) a Maria e a todos os mártires

A data foi mudada para Novembro quando o Papa Gregório III (731-741) dedicou uma capela em Roma a Todos-os-Santos e ordenou que eles fossem homenageados no 1.° de Novembro. Na génese desta alteração terá estado um feriado comemorado na mesma data, em Inglaterra, o qual por sua vez deriva do Samhain, uma festa popular/pagã dos povos celtas durante o tempo da cristianização da Grã-Bretanha. No ano de 835, o Papa Gregório IV declarou-a uma festa universal.

Esta celebração integra uma evidente intenção catequética: o apelo de Cristo a cada pessoa para o seguir e ser santo, à imagem de Deus, em que foi originalmente criada. Esta dimensão potencia a existência de santos vivos (não apenas os do passado) e que cada pessoa o pode ser também. Recorde-se que o Papa João Paulo II foi um grande impulsionador da “vocação universal à santidade”, tema renovado com grande ênfase no Segundo Concílio do Vaticano.

Quanto ao Dia de Finados, que hoje se celebra, em que as pessoas rezam tendo em vista o auxiliar das almas no purgatório, foi um feriado fixado pelos monges de Cluny-França, durante o século 11. Com alguma confusão instalada na mente do povo enraizou-se durante o período medieval a crença de que nesse dia as almas do purgatório podiam aparecer assumindo as formas de fogo-fátuo, bruxas, sapos, entre outros.

Em Portugal e no dia Dia de Todos-os-Santos subsiste, com dificuldade, uma antiquíssima tradição. As crianças saem à rua e juntam-se em pequenos grupos para pedir o Pão-por-Deus (ou o bolinho) de porta em porta. O dia de pão-por-deus, ou dia de todos os fieis defuntos, era o dia em que se repartia muito pão cozido pelos pobres, tradição já registada no século XV, com origem no ritual pagão do culto dos mortos, de raízes milenares.

Esta tradição teve impulso decisivo em 1756. Como a data do terramoto de 1755 coincidiu com a data de significado religioso (01 de Novembro), a população de Lisboa aproveitou a tradição para desencadear, por toda a cidade, um peditório, com a intenção de manter uma tradição que lembrava os seus mortos. As pessoas batiam às portas e pediam que lhes fosse dado o Pão-por-Deus.

Este ano, e para muitos que vivenciaram de perto a tragédia dos incêndios florestais, a uma escala nunca vista, com perda de vidas e imensos bens, tanto o Dia de Todos-os-Santos, como o Dia dos Finados não se reduziram ao peso habitual de quem cumpre um calendário. Mas sim o momento exacto e apropriado para meditar e reflectir em tudo quanto aconteceu e que permanece como uma realidade feita de dor e devastação, gerada algures na sombra do Criador.

(*) Historiador e investigador