Coimbra  18 de Outubro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

Crescer mais e gastar mais e melhor

12 de Março 2018

Sempre torci o nariz, quando, alguns, após a vitória de Rui Rio (RR), evidenciavam a inevitabilidade do diálogo e dos ”arranjos reformistas” com o PS.

A minha razão era simples: acredito num Governo legítimo e numa oposição forte, com linhas claras de alternativa, como caminho incontornável para uma democracia saudável. Ora, logo que Rui Rio apareceu a dizer que o PSD queria ser parte nas reformas estruturais, de que Portugal tanto precisa, de imediato, António Costa (AC) respondeu a dizer que esta disponibilidade do PSD não altera, um milímetro que seja, as actuais regras do jogo.

Nele, o PS quer ser o centro de referência à sua Direita e à sua Esquerda, afirmando, porém, preto no branco, que os seus parceiros privilegiados são os que ele escolheu nesta caminhada, que pode durar, tudo indica, os quatro anos do mandato. Portanto, disse, claramente, que RR é uma peça “bem-vinda” desta nova fase, mas que o poder passa pela «geringonça». Nem mesmo quando as mudanças possam reclamar dois terços dos deputados. Por isso, é preciso ter presente que AC não valorizou, quase nada, o facto de o maior partido na Assembleia da República protagonizar um novo ciclo político, que resulta das mudanças que nele se verificaram internamente. Parece, assim, claro, que o PSD tem de alterar os seus objectivos estratégicos. Pedinchar ao PS tempo de reflexão à volta de grandes temas, esgotando neles o pouco tempo que falta até às eleições legislativas, é dar o “ouro ao bandido…” Quer isto dizer que é preciso meter as grandes reformas na gaveta? Claro que não. Trata-se apenas de mero sentido de oportunidade e de um calendário eleitoral, que não admite erros de percurso. Portanto, o pouco tempo que falta tem de ter uma gestão muito inteligente, politicamente, devendo passar pelos temas que mexem, no quotidiano, com a vida das pessoas.

Olhando para dentro do PSD, Rio tem d saber mobilizar os “soldados” e estimulá-los para os combates (como lembro Marcelo Nuno, no distrito de Coimbra, com o seu poder de organização e mobilização) para chegar ao país real com contratos de séria responsabilidade centrados nas questões que tenham a ver com a melhoria do futuro dos portugueses. De todos os portugueses. Todos.

RR não tem tempo para experimentações. Não há tempo. O caminho só pode passar por o PSD exibir ideias e projectos que o mostrem a olhar o futuro, e que quer chegar a ele, antes que isso aconteça, apresentando soluções que saibam concretizar a gestão social e económica do território, do emprego e do crescimento ao serviço do desenvolvimento. Para isso, há que rapidamente “descodificar” o que se quer fazer, sobretudo quando as soluções a apresentar aos eleitores têm conteúdos que vão mexer com a sua qualidade de vida. É preciso redefinir e apresentar um modelo social, criativo, inovador e saber pô-lo em contraponto com a política de interesses, que está a subjugar a «geringonça» (basta olhar para o que se passa na banca, nas energias, etc.) O desafio é enorme. O tempo é escasso. Mas não vejo outro caminho. Errar na estratégia só pode significar robustecer o PS e criar a Rui Rio um bico de obra após as eleições legislativas.

Por tudo isto, Rui Rio tem pela frente uma situação que lhe é desfavorável, até pelos danos sociais que o Governo de Passos Coelho teve de causar e pelo aproveitamento hábil que António Costa está a fazer de uma economia europeia em franca recuperação. Daí, o PSD precisar, sem ambiguidades de percurso, de ir directo ao eleitorado, com políticas para as pessoas, assentes em soluções realistas e ambiciosas, mas concretizáveis e sustentadas. Sem medo de pegar em velhos e novos problemas sociais (a saúde é um bom exemplo) que pululam e inquietam tantos milhares de portugueses, que sentem que este Governo dá com uma mão o que tira com a outra, negligenciando aspectos fundamentais da vida dos cidadãos. É tempo, acredito, de dar prioridade às temáticas sociais, cujos diagnósticos, na sua maioria, até já estão feitos, assumindo-se o compromisso público de lhes dar clara solução em tempo útil. As questões sociais são o verdadeiro ADN do PSD, o que só por si sustenta estas opções políticas e o recentramento político que delas resulta. Ora, em tempos de vacas mais gordinhas, é preciso que o PSD saiba “oxigenar” o seu projecto de Estado social, com uma ascensão controlada da despesa, do consumo e dos incentivos às empresas, porque são elas que fazem andar as “coisas” e criam emprego.

É que o PSD precisa urgentemente de saber ser social-democrata, cumprindo-se e agindo como tal, esquecendo o seu habitual papel de tapa-furos dos desastrados governos do PS, que, já por três vezes, nos puseram à beira da bancarrota; o PSD tem de dinamizar a economia, fazendo crescer, mais e melhor, o país, assumindo uma redistribuição inteligente e bem comunicada, gastando mais e melhor, com equidade social. Seguir esse caminho é fazer política de oposição virada para o que é essencial no xadrez político: as pessoas e Portugal.

(*) Ex-vereador do PSD na CMC