Coimbra  25 de Fevereiro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Rui Avelar

Correios ao arrepio da vocação

1 de Fevereiro 2018

A criação do serviço postal em Portugal remonta a Novembro de 1520. Foi tempo em que os carteiros, a pé ou montados a cavalo, eram portadores de espada e punhal para defenderem a vida e a correspondência.
Os Correios eram uma entidade de prestígio e, naturalmente, respeitada, tendo desempenhado o papel de grande elo de ligação entre as pessoas.
Os carteiros, cujas buzinas alertavam para a hora da merenda na aldeia onde vivi, exerciam, com garbo, o papel de mensageiros, conjugando-o com o de confidentes, em paralelo com o padre, o médico e o professor.
Com a voragem do tempo, os carteiros passaram a fazer-se transportar em veículos motorizados. O que se ganhou em celeridade perdeu-se em matéria de relações humanas. Desapareceram as cornetas e definhou a salutar cumplicidade por que se pautavam as relações entre os carteiros e os utentes dos CTT.
A sigla CTT era sinónimo de Correios, Telégrafos e Telefones. Com a voragem do tempo, o objecto da empresa Correios confinou-se à correspondência e enveredou pela banca (negócio financeiro).
Segundo a revista Exame, o capital da sociedade pertence totalmente à iniciativa privada, desde Setembro de 2014, e a opção pela venda em Bolsa rendeu aos cofres públicos mais de 900 milhões de euros.
O negócio deu lugar a uma estrutura accionista dominada por investidores financeiros.
Para o economista Paulo Soares de Pinho, “a gestão dos Correios foi capturada por alguns accionistas, muito endividados, que olham para a empresa como uma fonte de dinheiro”.
Neste contexto, a sociedade entregou aos accionistas, em 2016, um volume de dividendos (72 milhões de euros) superior ao montante do lucro.
“Se a empresa tivesse um plano de investimentos, não distribuía” tamanho volume de dividendos, opina o economista João Duque.
Quanto ao futuro da empresa, parafraseando a Exame, ele é “cada vez mais incerto; a única certeza é a de que vai festejar” uma efeméride “no mesmo ano (2020) em que termina a concessão de serviço público postal”.
Posto isto, os Correios deixaram de fazer jus a um antigo lema – o de que aproximavam as pessoas.