Coimbra  14 de Novembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

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Margarida Mano

Coimbra: A teia dos sonhos

11 de Maio 2018

O aniversario do “Campeão das Províncias” é sempre um momento de congratulação pelo querer de todos aqueles que hoje defendem a imprensa regional, enquanto jornalistas, editores, trabalhadores da imprensa ou leitores. Este é o exemplo de um jornal que, fundado no século XIX, persiste e se afirma nos nossos dias graças ao querer e à persistência de um jornalista, seu Director, que em 1998 recuperou, até aos dias de hoje, a sua publicação. Referir Lino Vinhal é, além de justo, absolutamente oportuno quando o tema é o sonho, a ambição, a vontade e a luta por Coimbra.

Acredito que para atingir um sonho o que verdadeiramente conta são as muitas vontades daqueles que tecem consistentemente a sua teia. Quando, das muitas vontades, se destaca um alto responsável os desígnios assumem a força de inevitabilidade e é mais fácil ver o sonho acontecer… mas todos sabemos, olhando para a história de Coimbra nas últimas décadas, como esta constelação é difícil e como foram muito poucos aqueles que hoje podem ser louvados enquanto condutores do desígnio de Coimbra.

Lino Vinhal é uma das vontades que tecem consistentemente a teia dos sonhos.

A última vez que estivemos juntos foi em Fevereiro, na Assembleia da República, por ocasião da conferência e inauguração da exposição “A Imprensa Centenária Portuguesa no sec XXI”, organizada pela Associação Portuguesa de Imprensa (API). A existência de mais de 30 jornais centenários com publicação ininterrupta é uma especificidade portuguesa que deu azo a uma candidatura das “Publicações Centenárias Portuguesas” com o objetivo do seu reconhecimento pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Três destes jornais são do Distrito de Coimbra: “A Comarca de Arganil”(1901);“O Amigo do Povo”(1916) e o“O Despertar (1917).

Não tenho dúvidas que o que deve ser feito para lutar pelos desígnios de Coimbra é isso mesmo: conhecer bem os recursos, competências e o potencial; ter ambição e acreditar num ideal; unir forças com todos os que podem ajudar e lutar, lutar até vencer.

Também não tenho dúvidas que é hoje difícil responder à pergunta “A que pode Coimbra aspirar?”

Mesmo em áreas onde poderia parecer fácil uma resposta, como é o caso da Saúde, pelas competências e potencial instalado, pelas sinergias e capacidade de atração, pelos impactos económicos, sociais e de qualidade de vida que gera, os acontecimentos sucedem-se parecendo querer desmentir qualquer aspiração ou desígnio de Coimbra nesta área.

Todos nos alegrámos quando, em 2015, Portugal passou, através de Coimbra, a integrar como o 18.º membro (5.º europeu) a M8Alliance, uma associação que se dedica à saúde a nível global, com origem no G8. A candidatura de Coimbra organizada durante mais de um ano, pelo Consórcio CHUC e UC, contou com o apoio do ministro da Saúde Paulo Macedo, do embaixador de Portugal em Berlim na altura e do compromisso do Estado Português. E, no entanto, nos últimos dois anos, assistimos a sucessivas decisões governamentais que não só não reforçam o potencial dos recursos e competências de Coimbra como os diminuem em termos verdadeiramente penalizadores. Assistimos a estas decisões no silêncio das vontades de Coimbra que certamente estarão distraídas a tecer outras teias.

Foi assim em Maio do ano passado com a polémica escolha política efectuada pelo Governo pela cidade de Lisboa, … que depois passou a ser Porto, para acolher a Agência Europeia do Medicamento. Aquilo que chocou não foi o facto de recair sobre a capital, mas sim o de ter sido feita uma escolha sem qualquer explicação razoável, sem qualquer discussão, sem qualquer argumentação que pudesse convencer os outros que não se trata de uma decisão política centralista sem nenhum trabalho de análise relativamente às alternativas. Verdade seja dita que de Coimbra poucas vontades se ouviram…

Foi e é assim na discriminação da região Centro feita pelo Governo na referenciação de doentes queimados. Com os dois grandes incêndios de 2017, deflagrados na região Centro do País bem presentes, que provocaram mais de uma centena de mortos e cerca de três centenas de feridos queimados, a maioria a obter cuidados de saúde no CHUC, assistimos a um despacho em Outubro, do secretário de Estado Adjunto e da Saúde absolutamente incompreensível. O despacho, que pretendeu mapear as unidades de queimados graves e alargar a lotação das unidades de queimados, retira Coimbra da centralidade do mapa. Fá-lo ao pressupor a redução de 10 camas disponíveis para doentes queimados existentes nos CHUC em benefício dos hospitais do SNS localizados nas cidades de Lisboa e do Porto e ao referir que, existindo actualmente no país uma única Unidade de Queimados Pediátrica (Hospital de Dona Estefânia) e que tal é insuficiente, “deve ser criada uma Unidade de Queimados Pediátrica na Região Norte”, optando assim por não criar formalmente uma unidade pediátrica de queimados na região Centro, que dispõe de serviços hospitalares altamente diferenciados e é infelizmente a mais afectada por incêndios e a de maior risco. De Coimbra ouviram-se algumas, muito poucas, vozes, sem a força da teia das vontades… e os resultados serão os esperados.

Foi e é assim com a instalação de unidade de saúde para o tratamento de doentes com cancro com recurso a feixes de partículas de alta energia, onde também por Resolução de Conselho de Ministros de Março deste ano foi decidido, sem discussão, localizar a instalação desta nova unidade na região de Lisboa. Repare-se que Coimbra responde a todos os critérios definidos na Resolução: encontra-se num centro populacional do país e conta com excelentes acessibilidades; tem áreas disponíveis para a implementação do projecto e para expansões futuras; apresenta inquestionáveis competências e conhecimentos acumulados em Física Nuclear e Protecção Radiológica, em Imagiologia e em aplicação médica das radiações; tem proximidade de unidades hospitalares, o CHUC (com uma Unidade de Radioterapia de excelência em instalações autónomas), o IPO-Coimbra (com o único equipamento de Tomoterapia do país), o Hospital Pediátrico e diversas unidades privadas de saúde; tem já centros de I&D com competências avançadas na área da Física Nuclear e de partículas (LIP) e na área da Imagiologia Médica e das Ciências Nucleares Aplicadas à saúde (ICNAS e CHUC); opera o único acelerador de protões (ciclotrão) público nacional e distribui, com autorização do INFARMED, cinco radiofármacos para diagnóstico oncológico com PET em todo o país. Mas Coimbra aspira a isso? … ouviram-se vozes? …

O Centro Académico e Clínico de Coimbra CHUC/UC organizou, em Coimbra, a conferência intercalar da World Health Summit (Cimeira Mundial de Saúde), sob a égide da M8 Alliance, a tal organização onde Portugal entrou pela mão de Coimbra. Coimbra está de parabéns, no centro da discussão no mundo das cada vez mais complexas questões ligadas à saúde global, quer na sua vertente científica quer nas vertentes organizativa, da política de saúde e da coordenação multilateral. O Ministério da Saúde, Câmara Municipal de Coimbra e CCDRC apoiaram o evento. Nestes eventos onde é mais fácil os ministros e os secretários de Estado virem louvar Coimbra, que as vontades de Coimbra lhes perguntem: “A que pode Coimbra aspirar?”

(*) Deputada do PSD

[Artigo publicado na edição de aniversário]

 

 

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