Coimbra  30 de Abril de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Bissaya-Barreto: o complexo materno-infantil da Quinta da Rainha

20 de Abril 2017
14 - OP Joao Pinho Obra Materno Infantil

Inauguração do complexo-materno infantil – Bissaya-Barreto discursando, 28/04/1963

 

O complexo materno-infantil da Quinta da Rainha, próximo do largo de Celas – Coimbra, tornou-se um símbolo da obra social de Bissaya-Barreto. A sua história envolve algumas vicissitudes que importa relembrar.

A 18 de Maio de 1946, o Diário do Governo decretava a criação da delegação do Instituto Maternal em Coimbra, instalada no largo da Sé Velha e inaugurada em Setembro do mesmo ano, contando com uma Maternidade e Consultas Externas de Puericultura, Pediatria, Obstetrícia e Ginecologia.

Apesar deste passo importante no âmbito da Obra de Protecção à Grávida e Defesa da Criança, Bissaya-Barreto pugnava há muito por um Instituto de Puericultura que desejava instalar na Quinta da Rainha, donde estava para sair, para novas instalações a Escola do Magistério Primário.

A obtenção da referida quinta foi a etapa seguinte. Contudo, um passo que se revelaria difícil de dar, pois o ministro das Obras Públicas de então desejava instalar naquele espaço, junto ao campo de jogos de Santa Cruz, um complexo desportivo universitário.

Sucedeu, porém, que, na mesma época, a Academia de Coimbra se confrontava com a falta de uma sede condigna, para a sua Associação, desde as demolições da “Velha Alta”. Bissaya-Barreto convocou a Direcção, para lhe dizer que a Junta Distrital disponibilizaria a área ocupada, junto à praça da República, pelo Ninho dos Pequenitos e demais instalações afins, se fosse autorizada a permuta com os terrenos da Quinta da Rainha, para onde essas instalações seriam transferidas.

Reunido o consenso, viria a ser publicado, em Outubro de 1946, o Decreto-lei n.º 35 893 que autorizou a Direcção-Geral da Fazenda Pública a ceder à Junta de Província e a título definitivo a citada Quinta da Rainha. Pelo seu lado a AAC viria a dispor de uma sede condigna, além do Teatro Académico de “Gil Vicente”.

O complexo seria inaugurado a 28 de Abril de 1963, ficando constituído pelas seguintes unidades: Maternidade Bissaya-Barreto, Edifício das Consultas Externas, Ninho dos Pequenitos, Creche D. Maria do Resgate Salazar, Parque Infantil Doutor Oliveira Salazar, Escola de Enfermeiras-Parteiras, Lactário, Sala de Conferências, Salas da Administração, Lavandaria e Rouparia, Cozinha, Caldeiras e Jardins.

A partir de 1964 aqui funcionará o Centro de Saúde e Assistência Materno-Infantil do Dr. Bissaya-Barreto, criado pelo Decreto-Lei n.º 45.591, de 03 de Março do mesmo ano, emanado do Ministério da Saúde e Assistência. O nome seria, posteriormente, rectificado para Obra de Assistência Materno-Infantil, para não se confundir com a designação dos Centros de Saúde então criados.

Pelo Decreto-Lei n.º 93/71, de 22 de Março de 1971, criou-se o Centro Hospitalar de Coimbra (CHC), que agregou não só a Obra de Assistência Materno Infantil, mas também os bem conhecidos Hospital Geral da Colónia Portuguesa do Brasil, Hospital Pediátrico de Celas e Hospital Ortopédico e de Recuperação (Figueira da Foz). Pelo mesmo diploma, o Centro de Neurocirurgia de Coimbra foi também integrado no hospital.

Com a criação do CHUV e integração no mesmo do CHC, era de esperar um maior respeito pela antiga Obra de Assistência Materno Infantil, especialmente quando se cumpriram as “bodas de ouro” em 2013: pela história, experiência, profissionais, utentes… No entanto, pouco ou nada se fez, como também muito pouco se irá fazer, ao nível da história e da memória com o fim anunciado da Maternidade Bissaya-Barreto. Oxalá esteja enganado!

(*) Historiador e investigador