Coimbra  20 de Abril de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Assim vai Coimbra: A tragédia da rua da Sofia

6 de Abril 2018

17 - João Pinho Rua da Sofia (D.R.)

Coimbra quinhentista fervilhava com as reformas renascentistas. Entre a “Alta” e a “Baixa” nascia um imenso estaleiro de obras destinado a albergar a universidade e seus colégios. No âmbito dessa reconfiguração urbana e universitária da cidade, rasgou-se, em 1535, a rua da Sofia.

A nova artéria de Coimbra ganhou fama e atraiu curiosidade. Era, dizia-se, uma das maiores ruas da Europa, em torno da qual se instalaram diversos colégios universitários dependentes de ordens religiosas com imponentes igrejas e claustros – S. Boaventura, Carmo, Graça, S. Tomás, S. Bernardo – configurando uma unidade cénica e artística de excelência no contexto da urbe: a norte enquadrada pela Igreja de Santa Justa; a sul pelo Mosteiro de Santa Cruz.

Durante séculos foi a principal entrada e saída da cidade para quem vinha ou demandava o norte. Testemunha de revoluções e convulsões sociais, assistiu a peregrinações, procissões, desfiles de reis, rainhas, marchas de exércitos, quedas de regime e ascensão de novas formas de poder.

A partir de finais do séc. XIX, perdeu as características colegiais, universitárias e religiosas que sempre a caracterizaram, em favor de bárbaras transformações dos seus espaços em áreas comerciais e residênciais. Com a complacência dos poderes locais até a instalação de fogueteiros se permitiu, com os perigos daí decorrentes, não sendo raro que um paiol explodisse e levasse deste mundo umas quantas vidas inocentes, deixando outros tantos vivos mas estropiados.

A rua da Sofia à medida que definhava foi fazendo jus, paradoxalmente, ao seu nome, concentrando no perfil longitudinal diversos saberes: tornou-se centro cívico vital para a cidade, onde se sedearam importantes empresas, como o Diário de Coimbra ou a Caixa Geral de Depósitos, de mercearias como o Reis e Simões, de papelarias e livrarias como a Casa do Castelo, de roupa da moda como o Infinito, de brinquedos como a Joaninha, da pastelaria Palmeira, de seguradoras, de companhias de teatro, de clubes e associações, de tabernas e restaurantes e até de um tribunal a comemorar na actualidade 100 anos de existência.

O património histórico e religioso conseguiu sobreviver por entre violentos ataques à sua integridade. Apesar das invasões francesas, da extinção das ordens religiosas, das vendas em hasta pública, ou da ocupação pelos militares no tempo da I.ª República. Perdeu-se muito, é certo, mas o que se salvou (de qualidade e quantidade) justificava pelo menos uma atenção especial da parte dos poderes envolvidos na gestão de tão vasto património: Estado, Igreja, Autarquias, Exército – um entendimento de regime.

É quase anedótico olhar para o potencial da rua da Sofia e assistir a tanto abandono e desleixo – que tanto material daria a Eça de Queirós para reescrever um romance bem conhecido. De local, em teoria, obrigatório para turista ver e consumir, tornou-se um local de passagem e não tarda, a evitar como o diabo da cruz! Uma rua triste, desprezada, sem animação, que envergonha Coimbra mas de que Coimbra, aparentemente, não tem vergonha.

É que se esta Coimbra tivesse algum pudor não deixava a questão arrastar-se no tempo e no espaço, exibindo à região, ao país e ao mundo a sua incapacidade em gerir um legado dos nossos antepassados que é – não por acaso, certamente – Património da Humanidade.

(*) Historiador e investigador