Coimbra  20 de Abril de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

As (des)Infraestruturas de Portugal

6 de Abril 2018

Criar um organismo, como as Infraestruturas de Portugal / IP, que aglutine as rodovias e as ferrovias sobre a alçada do Estado, é – desculpem-me o termo, respeitando o acto, mas ajustando a palavra, no seu campo brejeiro – parir um elefante branco.

Sem saudosismos, antes entendendo que, e no anteriormente, existiam entidades que sabiam cumprir com a sua missão de forma digna e com ilustrada valia técnica e profissional, recordo a JAE/Junta Autónoma de Estradas e, também, a CP/Caminhos de Ferro de Portugal, quero afirmar, e sem receios, que os nossos últimos mandantes/governantes, destes últimos 30 anos, vandalizaram – é a palavra – a ferrovia.

E algumas estradas ? Estão abandonadas. Que dizer do IP3, no seu troço entre Coimbra e Viseu. Um caos. O Presidente da Câmara Municipal de Viseu veio a terreiro denunciar a vergonha em que mergulhou esse lanço, com quilómetros de piso esventrado, sem marcações verticais e horizontais, etc.. Denunciou que em 10 anos morreram 197 pessoas. No Algarve a 125 é outro cancro. E quantas outras ?

Agora, e numa molhada indecente e sem qualquer regulação ajeitada, porque os comboios não são rodovias e estas não são aqueles, bem pelo contrário, são coisas distintas e bem públicos diferenciados, juntaram-se sem se perceber a filosofia que preside a uma e outra mobilidade.

Daí ter resultado, recentemente, um estudo sobre os nossos caminhos-de-ferro que é um grito de alerta para o futuro colectivo do nosso país. E para quando um sobre as rodovias nacionais e municipais, retirando as auto-estradas e SCUT´s?

Destruímos quase 1 000 quilómetros de linhas, numa acção de lesa pátria. Tínhamos cerca de 3 400 quilómetros e passámos para uns 2 500, o que revela a falta de lucidez dos nossos últimos governantes, das três últimas décadas.

A linha que vai funcionando, mas com engasganços conhecidos, é a que vai de Braga (o tramo da do Norte e outro da do Sul) a Faro, porque um eixo fundamental para o transporte de passageiros. Entretanto, e nestes últimos 30 anos, desactivaram-se outras linhas e muitos ramais, num desperdício sem precedentes de um património nacional que valia biliões, deixando o interior mais exposto ao abandono, porque não se pode ir e vir, para qualquer desses lados, para lá de Lisboa, do Porto, de Coimbra, de Braga, de Aveiro, de Setúbal e de Faro se não existir uma ferrovia que servia populações e empresas estabelecidas no ‘hinterland’ do país profundo. A linha da Beira Baixa está reduzida a uma expressão medíocre e a da Beira Alta faz que vai e não vai, quanto a obras de remodelação. A do Minho, outro escândalo.

Temos andando a decapitar as linhas férreas. Será que os nossos políticos já perceberam o que está para vir, de normas da EU, sobre o corte de tráfego rodoviário, principalmente o dos pesados, para tentar baixar as emissões de carbono? Traçaram algum Plano Ferroviário Nacional para recompor o que foi destruído e para lançar novas linhas como, aliás, a Espanha tem feito? Para quando a ligação ferroviária do Porto de Sines até à fronteira do país vizinho?

Será que os nossos políticos perceberam, também, que, e apesar do mais, ou seja, da utilização futura de veículos eléctricos, as entradas das principais cidades vão continuar a estar congestionadas se não passar a existir uma alternativa com e de qualidade, o comboio, para transporte de pessoas e carga?

Chegou o tempo de os partidos, as forças económicas, sociais e, também, as empresas e os que mais projectam a nossa sociedade, incluindo as universidades e os centros de investigação, a par dos nossos melhores e reputados sábios e técnicos, em conjugação com o Governo e com o próprio PR – todos são chamados a torcer para os principais desígnios nacionais – iniciarem um ciclo que possa, e num espaço de tempo curto, tendo em vista o futuro próximo, elaborarem um programa e/ou um plano que abarque projectos de contribuição para o desenvolvimento e o progresso harmonioso, sustentável e de qualidade para todos os nossos cidadãos e para Portugal.

O tempo, o deste séc. XXI, não se compadece com medos, com arremedos, com palavras – levas o vento – e com discursos de encantar e de embalar. O tempo, o de hoje, é de acção.

Sem pensarmos o futuro não conseguiremos caminho para o projectar e o alcançar. A ferrovia é um instrumento fundamental e precioso para buscarmos e chegarmos a esse objectivo.