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João Pinho

Arquivos Portugueses – Filhos de um Deus menor (com Torga no horizonte)

14 de Setembro 2018

A catástrofe que se abateu sobre o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil, despertou uma onda de indignação e solidariedade mundial, especialmente intensa nas redes sociais e nos media onde reputadas e insuspeitas personalidades da cultura global manifestaram pesar pela perda irreparável que o incêndio provocou na memória e na história da humanidade.

Estou, nesse ponto, em completa sintonia: desapareceu, para sempre, parte de 20 milhões de peças de várias colecções, com destaque para Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com cerca de 12 500 anos. Mas também, múmias egípcias, colecções de etnologia e etnografia, fauna e flora da América do Sul, reunidas durante gerações por investigadores de diversas áreas – que agora ficam privados de dar continuidade aos seus trabalhos, lesando anos de árduo labor técnico e científico.

Mas toda a tragédia encerra, quase sempre, aspectos anedóticos a que convém estar atento para não sermos seduzidos pelos ditames de circunstância. De facto, o Governo português emitiu um curioso comunicado, a propósito do drama brasileiro, manifestando a sua “profunda tristeza pela perda de um acervo histórico e científico insubstituível” e declarando-se “inteiramente disponível para, no que for útil e possível, colaborar na procura da reconstituição deste importante património identitário, não apenas do Brasil, mas de toda a América Latina e do mundo”.

Uma tomada de posição do foro diplomático cuja leitura, nas linhas e entrelinhas, é como o pó de arroz ou o sol que se tapa com a peneira: omite a realidade de muitos museus, bibliotecas e arquivos no nosso país, induzindo em erro os mais incautos, ao dar a entender que no «nós por cá» se vive um mar de rosas no que diz respeito à missão, objectivos e acção daquelas venerandas instituições.

Na verdade, e apesar do muito investimento feito nos últimos anos em arquivos, bibliotecas e museus pela tutela, subsistem gravíssimos problemas de funcionamento: falta de recursos humanos e materiais, condições de acesso e acessibilidade ao utilizador/investigador deficientes, inadequação ou inexistência de meios tecnológicos, ausência de potencialização dos acervos mediante projectos estruturados com centros de investigação ou bolsa de investigadores, disponibilização on-line de fontes, divulgação, inovação e publicidade, envolvimento da comunidade – são apenas alguns exemplos respigados ao sabor da escrita de uma situação que tarda em se resolver pelo simples motivo de que não dá votos no tempo das vindimas políticas.

No caso específico dos arquivos, em especial os municipais, que conheço com maior profundidade, a situação é talvez a mais dramática de todas: fragmentação de acervos por vários espaços, acondicionamento das espécies em lugares impróprios e inadequados, excessiva exposição aos rigores do calor, frio e humidade, departamentos quase sempre tutelados por bibliotecários e não por arquivistas.

E que dizer dos arquivos das freguesias sistematicamente esquecidos pelas próprias autarquias e pela administração central, sem legislação adequada, funcional e protectora, onde se navega à vista e onde domina o total amadorismo? Alguns arquivos, da nossa memória local e regional, têm sobrevivido quase por milagre e intercessão divina dos oragos das respectivas comunidades ou, para os menos crentes, por boa vontade de uma ou outra alma mais sensível. No entanto, muitos acervos já se perderam parcialmente na espuma dos dias ou então subsistem raros exemplares de tempos idos à espera do golpe final: o lixo, a queima ou a inundação oportuna.

A consciência desta realidade fez-me calafrios quando verifiquei que o português bondoso, atento e solidário, mas também desconhecedor das suas próprias realidades, não hesitou em se lançar numa onda de luto com a desgraça caída sobre a pátria-irmã erguida do outro lado do oceano.

Foi um gesto bonito, sem dúvida, como quem dá um ar da sua graça. Porém, é a própria desgraça a que o povo português parece condenado, que uma vez mais se carregou nesse abraço fraternal. Tivesse Torga, o poeta agónico e escritor telúrico, descoberto o manancial de informação que os arquivos guardam sobre a história e memória de Portugal e muito provavelmente teria visto outros horizontes naquela fraga transmontana em que seu pai o obrigava de enxada erguida a acabar os dias da sua adolescência.

E quiçá teria escrito mais um romance, a acrescentar ao rol de títulos que quase lhe valeu o Nobel: “Arquivos portugueses: filhos de um Deus menor”.

*Historiador e investigador

 

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