Coimbra  18 de Agosto de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Mário Carvalho

Aldeia de Ferraria de S. João, exemplo a seguir

4 de Agosto 2017

Trata-se a Ferraria de S. João de uma aldeia de montanha, pertencente à Cumeeira, Penela, cujas gentes resolveram “meter mãos à obra” e fazer algo por iniciativa própria.

Os moradores naquela pequena aldeia tomaram a decisão de avançar com um projecto arrojado para sua protecção, através da substituição de parte do eucaliptal existente por espécies de árvores “historicamente” mais características da mata original e também mais resistentes ao fogo.

Num acto de avançado vislumbre e coragem, os habitantes locais deram corpo a uma moção que prevê a criação de uma cintura de protecção, com cerca de 100 metros, à volta do aglomerado populacional, sendo que, tal como pudemos constatar, a centena de metros poderá mesmo vir a ser alargada para meio quilómetro. Trata-se daquilo que entendemos como uma atitude sábia e empreendedora por parte dos cerca de 40 habitantes.

A aposta, devidamente fundamentada, será feita no sobreiro, no carvalho, no medronheiro, ou até no azevinho.

Pese embora conheçamos as principais variáveis na origem dos incêndios, pois há muito que se fala sobre o problema, sendo que são vários os estudos feitos nesse sentido, inclusive da existência de legislação a fim de o minimizar e que raramente é levada à prática, este é, sem dúvida, um grande exemplo de iniciativa popular para o qual a região Centro e Portugal devem olhar.

Os moradores acham mesmo que este possa representar um momento de viragem sobre uma história contada em tons cinzentos pelos inúmeros incêndios que, durante décadas, têm assolado a região.

Esta forma de “empreendedorismo social”, que parte dos cidadãos, devia ser um exemplo a seguir por todos quantos convivem paredes-meias com o problema dos fogos, obviamente, e com mais relevo, mais incisivo nas regiões onde existem grandes manchas florestais, mormente de pinheiro bravo e de eucaliptos.

Acresce dizer que a Associação de Moradores da Ferraria de S. João é, por definição, “uma entidade sem fins lucrativos, constituída para dinamizar a aldeia através da valorização dos seus recursos endógenos: as pessoas (saber-fazer), o património natural e edificado, as práticas culturais”, situando os seus objectivos principais na recuperação das tradições locais, na potenciação da economia local pela prestação de serviços e no desenvolvimento da oferta turística de forma sustentada.

Estamos, pois, em presença de um excelente exemplo de dinamismo e iniciativa popular, o qual deve ser acarinhado e incentivado por quem de direito, nomeadamente pelo Poder Local nos seus diferentes níveis autárquicos (juntas de freguesias e câmaras municipais).

Se somarmos a isto a assumpção definitiva dos incêndios como nosso maior inimigo, que ceifa vidas e destrói enormes áreas de património pessoal e natural, e implica anualmente avultados prejuízos ao nível económico, não podemos, pois, passar ao lado sem dar a conhecer iniciativas como esta, tratando-se de uma mais-valia no que toca ao exercício da cidadania.

(*) Candidato do PS à CM de Penela