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José Belo

Académica: Outro brioso que parte

25 de Dezembro 2017

Fui apanhado de surpresa pelo funeral de Álvaro “Gandra”, realizado ontem (véspera de Natal).

É difícil, assim de repente, aceitar a finitude do “Gandra”, mais um grande Senhor da nossa Académica a partir, uma alma forjada na têmpera de um espírito rebelde, que acreditava poder mudar o mundo…

Mas, dentro do seu desassossego, havia sempre uma luz que apontava à sua Briosa, sentida por ele com o fervor dos grandes crentes.

Era, aliás, um símbolo genuíno, de uma dedicação verdadeiramente apostólica à Académica, um eterno sofredor nos maus momentos, mas exaltante na expressão contagiante quando havia «coisas» bonitas para contar.

Busquei no fundo do coração e da memória as mais adequadas palavras que pudessem, nesta hora de saudade, traduzir os meus sentimentos de respeito e academismo pelo Álvaro “Gandra”, bem como a minha gratidão pela generosa amizade que sempre me devotou.

Não consigo, também, disfarçar o dever que sinto de ter de pensar que a Académica e todos os académicos têm a obrigação de lhe prestar uma justa homenagem, que expresse a imperecível lembrança da sua enormíssima dedicação à Briosa.

É que a nossa instituição tem de saber alimentar-se dos que morreram com ela no coração, para poder continuar mais viva, honrando quem a honrou, sempre, de forma apaixonada, como fez o “Gandra”, não podendo ser um santuário de ingratidão, como disse, um dia, o meu  querido amigo Alfredo Castanheira Neves.

Dói-me mesmo a partida do Álvaro. Revejo-o em tantos momentos, vividos, sobretudo, no estrangeiro, onde a Académica, naqueles tempos, ia algumas vezes jogar. Fosse onde fosse, nunca estávamos sozinhos, pois ele lá se encontrava… à nossa espera.

Mais tarde, em Lisboa, em todos os eventos da Casa Académica, tivemos conversas sem fim à volta da Briosa.

Mas há um episódio de poucos conhecido, que vou deixar aqui, porque ele sabia, sempre,  assumir os seus actos. Vejo-o e recordo-o, talvez em 1976, no seu estilo trepidante, a entrar no Hotel da Torre, junto aos Jerónimos (Lisboa), com o famoso Palma Inácio à ilharga, a dizer-me que queria falar comigo, mas não podia ser ali, junto da equipa da Académica, que estagiava antes de um jogo com “Os Belenenses”, se bem me recordo.

Lá fomos para outro espaço e, então, «atira» de supetão: “Queríamos que aderisses à LUAR”.

De seguida, empolgou-se numa argumentação revolucionária, que traduzia a vontade generosa de me envolver em algo que para ele era épico.

A minha surpresa foi infinita. Eu sei que só se pode ser um bom social-democrata, quando, aos 20 anos de idade, somos da extrema-Eesquerda (a lembrar Barroso e Willy Brandt)! Mas aquilo era de mais para quem, mesmo jovem, tinha do futuro um outro peso e uma outra medida.

Lá tive de densificar as razões da impossibilidade de poder andar, com o Álvaro, pelos caminhos em que ele acreditava.

Ficámos amigos como dantes, mas não posso esquecer esse momento de sedução em que me quis na «equipa» dele.

Dói-me a sua partida.

Obrigado, querido “Gandra”, pela tua absoluta entrega à Académica e aos seus amigos, onde gosto de me incluir!

Paz à sua alma.

É isto que me vem, de  supetão, à memória, agora que perdemos essa figura que, como poucos, amava a Académica.

 

 

(*) Ex-futebolista da Briosa