Coimbra  25 de Junho de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

A negociata dos incêndios…

4 de Junho 2018

As verdades, as nuas e cruas, fazem mossa, produzem efeitos secundários, abrem-nos os olhos, promovem a liberdade de expressão, deixam-nos reflectir, permitem-nos avaliar as chafurdices e elevam a abordagem dos temas quentes, como o dos fogos florestais, a patamares que nos afligem pela pouca vergonha instalada.

Antes de Abril, da Revolução, competia à Força Aérea, à nossa, a de Portugal, com os meios que dispunha, entre muitas outras missões a bem da nação, operar nos teatros dos incêndios das nossas manchas verdes.

Fazia-o bem e com a noção do dever, a de um dos ramos das nossas Forças Armadas, cumprido.

Depois, e com o advento de empresas privadas, de concursos para tudo e mais alguma coisa, demitindo-se o Estado de muitas das suas principais funções que decidiu entregar a outrem, toca de entregar esse combate a firmas de aviação.

Firmas que alugam os seus meios aéreos – aviões de pequeno e médio porte e helis – a preços exorbitantes. Firmas que, e pelo elevado número de aeronaves envolvidas, durante o tempo mais complicado, o Verão, não conseguem ser só portuguesas. Também concorrem de Espanha. Firmas que levam couro e cabelo pela tarefa de combater os fogos florestais. Este ano – segundo sei – o preço é da ordem dos 3 700 euros/dia. Uma pipa de massa…

Isto deve ser um negócio da China…

Mas, e para que possamos ficar a saber as verdades, as tais que doem de as ler e de as ouvir, atentemos no que um coronel das nossas Forças Armadas escreveu a (des)propósito:

“Parece impossível… No final do século passado, enquanto o combate aos incêndios florestais foi uma “Missão”, a Força Aérea Portuguesa operava os meios aéreos em Portugal, mas quando esse combate passou a ser um “Negócio” arrumaram-se os C-130, os kit MAFFS para os equiparem ficaram a apodrecer, os bombeiros exaustos, os meios de substituição não aparecem e… o flagelo continua.

Quais as vantagens? A centralização dos meios aéreos na Força Aérea com custos reduzidos para o erário público, bem como a poupança em termos de manutenção (dado o background existente) e uma logística dos meios incomensuravelmente mais rápida e operacional.

Parece que, conforme noticiado em 09 Jun 2016, o MAI recusou entregar à Força Aérea a gestão e operação dos meios aéreos de combate a incêndios, bem como os de emergência médica, optando por manter o actual estado de coisas, com várias entidades, várias frotas, cada uma no seu “interesse” e custos acumulados para todos, incluindo contratação dentro e fora do país.

Espanha, EUA, Grécia, Croácia, Marrocos, são exemplos de países onde os meios aéreos de combate a incêndios são operados pela Força Aérea local. Parece impossível…”.

Concluo eu: impossível não é. É possível, como se pode avaliar pelo que veio já a público e que o Governo se comprometeu a ter ao dispor este ano para tentar não haver tragédias como o ano passado.

Este negócio chorudo não pode ter um ramo das Forças Armadas sob a sua alçada. Acabaria por sabermos de tudo o mais. Ficaríamos todos chamuscados com tanta indecência que povoa nessa matéria, tão delicada para a vida do nosso país.