Coimbra  23 de Maio de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A gestão da floresta: VI – o carvalho

12 de Janeiro 2018
17 - OP João Pinho VI - O Carvalho

A mata de Vale Soeiro, composta por grande número de exemplares do carvalho português, em Larçã (freguesia de Botão, Coimbra)

O carvalho é uma árvore autóctone de Portugal, existindo no planeta mais de 600 espécies do género Quercus. Em tempos os carvalhais terão sido dominantes nas florestas ocidentais europeias, incluindo Portugal. Contudo, na actualidade, representam apenas dois por cento da floresta nacional. Em algumas zonas ainda se pode observar como seria a floresta autóctone com predominância de carvalhos: Mata da Albergaria (serra do Gerês), Mata da Margaraça (serra do Açor) ou Mata do Solitário (serra da Arrábida).

Entre as espécies mais comuns em Portugal destacam-se:

– Carvalho-alvarinho (Quercus robur) também chamado de carvalho roble ou carvalho inglês. No nosso país encontra-se em grande quantidade no Minho, no Douro-Litoral e em Trás-Os-Montes, encontrando-se também frequentemente nas Beiras. No passado foi efectivamente a árvore dominante nestas regiões, que teriam sido preenchidas por extensos carvalhais. Um carvalho-alvarinho pode alcançar uma longevidade dos 500 aos 1 000 anos, sendo que há inclusive alguns exemplares na Europa que se pensa terem chegado aos 1 200 e aos 1 500 anos. Um dos carvalhos mais antigos de Portugal é o carvalho de Calvos, sito na Póvoa do Lanhoso, com mais de 500 anos (um carvalho-alvarinho).

-Carvalho-negral (Quercus pyrenaica) é semelhante ao carvalho-alvarinho com tronco e ramos de cor acinzentada escura. Apesar da sua designação científica é uma árvore rara nos Pirenéus, mas é nativa nas regiões circundantes. Está presente no nosso país sobretudo no Centro e no Norte interiores, mas também no Sul, na região de Castelo de Vide, no Alto Alentejo. Em tempos, existiram extensos carvalhais de carvalho-negral nas margens do rio Côa, e hoje em dia Portugal ainda é, inclusivamente, o país com a maior área existente de carvalhos-negral. Tal como outros carvalhos é uma bela e majestosa árvore, podendo atingir os 25 metros de altura e uma longevidade de cerca de 300 anos.

– Carvalho-cerquinho (Quercus faginea), também chamado de carvalho português. Tem uma folha verde escura, que no Outono e Inverno se torna acastanhada, e a sua bolota é uma das bolotas preferenciais para a alimentação do porco-preto. Em tempos terá sido a árvore dominante na zona Centro-Litoral de Portugal. De facto, foi de carvalhos-cerquinho que se obteve a madeira para as naus, caravelas e navios que participaram nos Descobrimentos portugueses, assim como a madeira para outros veículos como os carros de bois, e hoje em dia ainda é muito usada para vigas de construção, assim como para pipas e barris, sem esquecer que também é muito usada para lenha de alta qualidade. No entanto, ainda é uma árvore muito comum em serras como a de Montejunto, serra de Sintra, serra de Aire e Candeeiros, serra de São Luis, serra do Cercal (que lhe conferiu o nome de carvalho-cerquinho) e com grande predominância na serra da Arrábida. É uma árvore que pode chegar aos 20 metros de altura e cuja longevidade pode alcançar os 600 anos.

As vantagens do eventual alargamento da área de carvalhos em Portugal são alargadas: coexistem com outras espécies vegetais, proporcionam abrigo a muitas espécies animais; actuam como protectores do solo e reguladores dos ciclos hidrológicos; constituem um habitat óptimo para as mais diversas plantas; são resistentes ao ataque de fungos; a sua madeira possui um valor elevado de taninos; os bosques de carvalhos favorecessem o aparecimento de muitas espécies de cogumelos.

No fruto do carvalho – a bolota – se encontra a mais-valia económica e social: serve de alimento para animais como os esquilos e javalis, útil ao ser humano, sendo utilizada na pecuária para alimentar os porcos. A bolota também contém um valor alimentício para o homem desperdiçado na actualidade: costumava ser usada para fazer pão, licores e outros alimentos.

O carvalho tem também uma simbologia mítica e uma presença incontornável na cultura ocidental, visto marcar presença nos antigos mitos e cultos dos povos Indo-Europeus: celtas, gregos e germânicos. Em Portugal é, ainda, a árvore de eleição para celebrações com raízes ancestrais como é o caso da festa da Cabra e do Canhoto.

(*) Historiador e investigador