Coimbra  17 de Dezembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A gestão da floresta: IV – o sobreiro

30 de Novembro 2017

O sobreiro, também designado como sobro, sobreira ou chaparro (Quercus suber) é uma árvore da família do carvalho que, em conjunto com o pinheiro-bravo e o eucalipto, mais predomina em Portugal. Representa 23 por cento da floresta portuguesa, sendo que 42,2 por cento corresponde a sobreiros jovens, enquanto a idade média dos sobreiros portugueses se situa nos 85 anos, para uma longevidade produtiva de 180/200 anos.

Predomina a sul do rio Tejo, surgindo naturalmente associado: ao pinheiro-bravo nos terrenos arenosos da Península de Setúbal, Vale do Sado e no barlavento algarvio; à azinheira nalgumas regiões do interior alentejano, zona nascente da serra algarvia, Tejo Internacional e Douro Internacional; ao carvalho-cerquinho na Estremadura, Alentejo Litoral e Monchique; ao carvalho-das-canárias na região de Odemira-Monchique; ao carvalho-negral em alguns pontos da Beira Interior e Alto Alentejo, como as Serras da Malcata, São Mamede e Ossa. Surge, ainda, em algumas áreas de clima atlântico com pluviosidades extremamente elevadas, como na Serra do Gerês, onde predomina nas encostas mais soalheiras.

Fazia parte da vegetação natural da Península Ibérica, onde constituía, antes da acção do Homem, frondosas florestas em associação com outras espécies, nomeadamente do género Quercus. Na região envolvente a Coimbra, em especial nas zonas mais serranas, aparecem vários exemplares, alguns exuberantes, como os que outrora faziam parte da Mata de Santa Catarina (entre Eiras e S. Paulo de Frades).

Em grande parte da região do Alentejo são de destacar os Montados de Sobro ou Sobreirais, sistema agro-silvo-pastoril tradicional de sustentabilidade comprovada ao nível do uso de solo sempre que efectuada correctamente.

Nesses montados produz-se cortiça de qualidade, normalmente ao fim de 25 anos, embora os ciclos tendam a diminuir para 10 anos, aproximadamente, fruto de técnicas recentes de fertilização e irrigação. O Sobreiro é uma espécie florestal protegida por legislação em Portugal, pelo menos desde a Idade Média, devido ao seu interesse social, para manutenção da actividade cinegética. Desde o século XIV que Portugal exporta cortiça para o exterior e, a partir do século XVIII, com o início da utilização da cortiça como vedante, o sobreiro passou a ser economicamente muito interessante.

Actualmente é utilizada em vários sectores: no fabrico de isolantes térmicos, tecido de cortiça (vestuário, acessórios como malas, bolsas, carteiras e sapatos), materiais de isolamento sonoro e ainda na indústria aeronáutica, automobilística, aeroespacial, mas, sobretudo, na produção de rolhas para engarrafamento de vinhos e outros líquidos. Portugal é o maior produtor mundial de cortiça, sendo a cortiça portuguesa responsável por 50 por cento da produção mundial. O sector que emprega directamente 12 000 pessoas, e contribui com três por cento do PIB.

Além da cortiça, o sobreiro dá o fruto que é a bolota, também conhecida por lande ou, ainda, (mais correctamente) glande, que serve para alimentar as varas do porco preto alentejano, também conhecido por porco de montanheira, do qual se faz, além de enchidos, o presunto ibérico, ou presunto de pata negra.

O Estado tem reconhecido a importância do sobreiro e dos montados: em 2007 foi cunhada uma moeda comemorativa da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, cujo tema principal foi um sobreiro; e a 21 de Dezembro de 2011 a Assembleia da República aprovou um projecto de resolução que declarou o sobreiro como árvore nacional.

Além de importante motor da economia nacional, o sobreiro, que triplicou a sua área entre 1874-2006, deve ser levado em consideração quando se aborda a questão do ordenamento florestal em articulação com as alterações climáticas e incêndios florestais. Recomendam os especialistas, que o sobreiro se expanda para o Centro-Norte do país, preferencialmente, em áreas de solos pobres. De facto, os sobreiros são resistentes ao fogo, não apresentando o comportamento extremo do pinheiro ou do eucalipto, além de recuperarem com facilidade.

(*) Historiador e investigador