Coimbra  17 de Novembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A gestão da floresta: I – o caso do pinheiro bravo

10 de Novembro 2017

Mapa assinalando as áreas consumidas pelos incêndios de Outubro 2017 - o coração da maior área de pinhal contínuo na Europa

 

Após os terríveis incêndios que devastaram Portugal a uma escala nunca vista, aponta-se o dedo à associação de duas espécies dominantes na nossa floresta, pinheiro bravo e eucalipto, como sendo uma das causas de tamanha calamidade. Centremo-nos na mais antiga, o pinheiro, que em 2017, ocupava 31,2 por cento de toda a área florestal nacional.

De acordo com estudos paleobotânicos o pinheiro-bravo existe no nosso território entre seis a sete mil anos, estando desde então presente na nossa floresta de forma natural. Por volta do terceiro milénio antes de Cristo a sedentarização das comunidades influenciou o evoluir da vegetação, devido à necessidade de pastos para os animais, à queima dos matos e à cultura agrícola cada vez mais necessária para uma população em expansão, conduzindo ao recuo das manchas de pinhal.

Na Idade Média manteve-se a tendência para a diminuição e fragmentação da área florestal com o aumento da procura da lenha, carvão, madeira, mel e frutos silvestres e com o uso do fogo necessário à expansão dos terrenos para a pastorícia e agricultura. Contudo, o gosto dos reis e da nobreza pela caça foi permitindo que na região entre o Douro e o Tejo, a mancha florestal se mantivesse.

Por esta altura, o rei D. Dinis, o Lavrador, numa tentativa de suster o avanço das areias do litoral e de fornecer matéria prima para a construção naval, indústria fomentada pela crescente actividade mercantil e exploratória, decide prosseguir a plantação do pinhal de Leiria, iniciada no reinado anterior por D. Afonso III.

O pinheiro tornava-se assim, um motor essencial na economia nacional, recuando a sua mancha, novamente, com o intensificar do comércio na costa de África e Europa, e com a exigência da indústria naval na época dos Descobrimentos.

Em 1494, numa tentativa de contrariar esta tendência, é publicado o primeiro regulamento de reflorestação, obrigando à plantação de um certo número de árvores de determinadas espécies em todos os concelhos, a efectuar nos quatro anos seguintes – medida que não teve grande sucesso. Em 1565, D. Sebastião ordena, na célebre “Lei das Árvores” que se rearborizem as áreas de baldios ou propriedades privadas de todos os municípios com pinheiro bravo, castanheiros, carvalhos ou outras espécies adaptadas aos solos.

Esta lei afirmava a prioridade da plantação de resinosas: sendo o pinheiro bravo uma espécie de mais rápido crescimento foi semeada preferencialmente ao pinheiro manso e às folhosas.

No final do século XVI o pinhal de Leiria encontrava-se sobre-explorado pelo que foi mandado replantar por Filipe II de Espanha. No fim do século XVIII a preocupação com a fixação das areias do litoral para protecção das culturas agrícolas contra os ventos salgados e areias leva ao início da arborização com pinheiro bravo nestes locais.

Nos finais do século XIX inicia-se o projecto de arborização estatal dos baldios serranos, no Gerês e na Estrela e prossegue a arborização das dunas do litoral.

No séc. XX ocorre um dos grandes marcos da evolução da política florestal, com a Lei do Regime Florestal de 1901: fornecia incentivos para que os particulares arborizassem as suas matas e, em caso de interesse público, submetia os terrenos de particulares e das corporações administrativas ao regime florestal.

Com o Estado Novo renova-se a preocupação com a arborização. A política de florestação dos baldios, ao abrigo do Plano de Povoamento Florestal de 1938, previa a arborização de mais de 420 000 hectares, embora tenha ficado aquém dos seus objectivos (em 1970 só estavam arborizados 270 000 hectares).

Fruto daquele plano veio a desenvolver-se, com o tempo, a maior área de pinhal contínuo da Europa, numa mancha que se estende pela Beira Alta, Beira Baixa, Beira Litoral e Ribatejo, ocupando uma superfície de 812 000 hectares plantados, representando 62,5 por cento da área total do pinheiro em Portugal.

Foi toda esta área que nos incêndios de Junho e Outubro foi duramente castigada, acarretando prejuízos económicos, sociais e emocionais de larga escala, e impactos negativos ao nível da conservação do solo e regularização do regime hídrico.

Caberá aos silvicultores, em articulação com medidas governamentais adequadas, promover uma cuidada gestão florestal há muito discutida mas nunca implementada.

(*) Historiador e investigador