Coimbra  26 de Setembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Castelo Branco

A Gândara no seu melhor: rezas e mezinhas

8 de Junho 2018

Na minha terra, as pessoas continuam a manter as crenças que herdaram, continuam a fazer as rezas e as benzeduras em que acreditam, continuam a olhar para as luas, continuam a procurar a vida se lhes calham males lá por casa! E, a par destas, quantas vezes não recorrem ainda às mesinhas, por via da uma ciência que está longe de responder a tudo!

Manhã do domingo de Pascoela no mercado da Tocha: Na carreira, as mulheres de negro mostram o que durante a semana conseguiram poupar. Há sempre quem queira os ovos, as batatas novas ou as de semente, o ramo de salsa, as tangerinas, as molhadas de grelos, a galinha ali presa a uma perna. Também não falta, quem a par de isso, sempre quer falar e saber coisas que elas tão bem contam! Privilégio o meu!

Do grupo de que passei a fazer parte por via destas últimas razões, sobressaía então a voz da tia Maria do Zé Domingos virada a uma vizinha lá do Rio da Cruz, que se queixava de umas dores que se lhe tinham apoderado da cabeça, desde que chegara à feira. – Isso é quebranto que alguém te pôs. Manda-o tirar. E logo a tia Leonor do Bracial se dispôs a tratar disso, depois que vendesse o que tinha a vender.

Dentro em pouco, as duas lá seguiram, não sem antes aquela me revelar como ia fazer: “ arranjo uma taça com água e coloco nela cinco gotas de azeite. Se o azeite se juntar, não há quebranto, se se espalhar é porque há. Neste caso, em frente de uma porta aberta para a rua, direi três vezes: Deus te viu, Deus te criou, Deus te livre de quem para ti olhou. Senhora do Pranto tira este quebranto. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Estava eu ainda a matutar na tal forma de tirar estas dores, quando a tia Maria comentou, ao ver uma criança a andar com as pernas arqueadas: – a mãe daquele menino não foi destocada quando estava grávida e ele nasceu com as perninhas tortas. E logo me contou: – quando alguém toca por inveja ou outra maldade na barriga de uma mulher grávida, deve esta ir ao encontro da pessoa que tal fez, tocar-lhe também e dizer: “toma o que me deste e desmancha o que fizeste”. – Se não o fizer, a criança pode vir com algum “aleijão”.

A tia Olga acabaria por falar que não era só dantes que as pessoas procuravam estas coisas, pois hoje, e por aqui, quem precisa continua a recorrer a elas. – Ainda há dias a tia Laura dos Netos foi tirar o aguado a um menino ali às Berlengas que tinha nascido com a boca aberta. Para isso, foi pedido a uma pessoa de fora um pedaço de toucinho que ela lavou em água corrente e partiu em nove pedaços envolvendo-os de seguida em farinha. Com eles esfregou o corpo daquele pecante, que não pode ser limpo durante oito dias, sendo estes bocados depois atirados a um cão dizendo: “toma cão, fica tu com o mal e o menino não. Em nome do Pai (…)”.

Eis que se aproxima uma mãe ainda jovem com um filho ao colo, para comprar um molho de cebolas novas. Com um benza-o Deus, as nossas mulheres correram a espreitar a criança debaixo do xaile, que porventura ensonada abriu a boca. Acto continuo a tia Maria do Zé Domingos logo lhe fez com o polegar o sinal da Cruz, por via dos maus espíritos não lhe entrarem, explicou-me, enquanto concluía: – Eu tive seis nos tempos da fome, e tudo quanto pudéssemos fazer para os proteger era pouco e não se olhava para trás. – Quem mos aparou foi a minha mãe, que Deus lá tem. E sabe como é que a gente lhes curava os “imbigos” quando nasciam? – Era com cinza do bunho das esteiras que se queimava e a que se juntava um pouco de azeite para ficar em pomada, enquanto pelas virilhas e pelo cu, por via de estarem assados do mijo, se agarrava em madeira podre que estivesse a desfazer-se e se metia na peneira da farinha, para que se fizesse no pó que depois lhes espalhávamos pelas partes. E quando os garotos eram já maiorzitos, para não fazerem as necessidades nas calças, a gente descosia-lhas entre as pernas, punha-lhes a gaita de fora e assim andavam todo o dia. Tempos!