Coimbra  11 de Dezembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

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José Belo

A Académica e o mafarrico da crise

11 de Outubro 2018

Há três ou quatro anos, a FIFPRO (Sindicato Mundial dos Jogadores Profissionais de Futebol) publicou um estudo sobre a depressão no desporto-rei.

Dizia esse estudo que, de acordo com a pesquisa feita, 26 por cento dos jogadores em actividade confessaram sofrer de depressão e ansiedade. E entre os ex-futebolistas essa cifra sobe para 39 por cento. Há nestes números tristeza, frustração e sentimentos de culpa.

É que o futebol tem um espaço privilegiado de grande intensidade emocional, que resulta da pressão sócio-desportiva e financeira.

Tostão, esse grande companheiro de Pelé e dos seus golos, chamou ao jogo, que cada equipa protagoniza, uma “verdadeira metáfora da vida”.

Nele encontramos alegria e tristeza, o bestial e a besta, a exaltação e a humilhação, a razão e a falta dela, o egoísmo e a solidariedade, o óbvio e o absurdo, o real e o simbólico, a agressividade belicista e o desportivismo e outras expressões que fazem parte do cardápio inerente ao ser humano.

Por isso, tantos futebolistas promissores ficam pelo caminho, porque são muitas as exigências a cumprir num homem só, sem falar no talento, na habilidade natural, força interior, autoconfiança, equilíbrio emocional, etc.

Ora, estes 7 a 2 com que os sócios da Académica foram «brindados», domingo (07), no jogo com o Estoril, lembram-nos que a par de um grande safanão, que terá de acontecer em vários domínios, o treinador João Alves tem de ter consigo um “psicólogo desportivo” de cinco estrelas. O momento reclama-o para se poder recuperar uma equipa em fase tão problemática.

Alguém que apoie e ajude João Alves a superar a angústia existencial de que padece a equipa da Académica – SDUQ (propriedade da AAC/OAF) e seja capaz de dar a volta aos eventuais transtornos de «personalidade» individual e colectiva que estas derrotas carregam com ela. O momento não será fácil.

Se calhar, no meu íntimo, peço o impossível neste momento: uma reflexão sensata, sem demonizar (diabolizar) nada nem ninguém, sem atirar às cegas responsabilidades para todos os lados (ao jeito de alvejar tudo o que mexe).

Eu sei, por mim, que custa muito digerir esta derrota, aqui mesmo, no nosso “castelo”. A minha expectativa consiste em ver a equipa da Académica representar sempre um pouco daquele romantismo que os tempos cada vez menos acomodam, mas que a memória de muitos mantém viva.

Mas também sei que é demasiado, cruel, atirar essa responsabilidade para as chuteiras deste plantel, que, para além de evidenciar fragilidades, não foi concebido para isso, mas sim para atacar a subida de divisão.

O presidente, Pedro Roxo – que bebeu em casa, desde menino, a paixão pela Briosa, sabendo que ela continua a ser, para muitos, mais do que um clube – veio dar «o corpo às balas», não se escondendo. Fez bem o que devia. Mas julgo que se pode ir mais longe.

É que, depois do pesadelo dos 7 a 2, alertados por este insólito resultado, muitos sócios até se perguntam se a equipa tropeçou no desábito de vitórias, evidenciando séria e preocupante predisposição para pôr em causa, cedo de mais, a luta pela subida de divisão; mas outros pensam que, concomitantemente, deve começar, já, outro jogo, muito mais importante, uma partida que vai ser jogada onde houver um coração a pulsar por esta camisola negra.

Um jogo contra nós mesmos, que cause desassossego, que seja capaz de nos interpelar sobre o que fomos, ao que chegamos e o que queremos ser, onde os dossiês do nosso descontentamento sejam escancarados.

De resto, estamos a pouco mais de meio ano da eleição dos futuros órgãos sociais da AAC/OAF.

Faço um voto: que no final dessa eventual reflexão, as conclusões reforcem o nosso olhar identitário e a coesão académica e que sejam capazes de dar a esperança de que é possível afastar, de vez, o mafarrico de uma séria crise, que parece ter vindo para ficar.
(*) Antigo futebolista e ex-presidente do Núcleo de Veteranos da Briosa

 

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