Coimbra  16 de Agosto de 2018 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

2017: Saboroso & Raríssimo

4 de Janeiro 2018

 

 

13 - OP João Pinho Pinhal de Leiria

Pinhal de Leiria – quilómetros de matas consumidas pelas chamas (Outubro de 2017)

13 - OP João Pinho Efeito da seca nacional

Efeito da seca nacional – pormenor da barragem de Fagilde, Mangualde (07/12/2017)

Como um dia escreveu a pacificista e poetisa Edith Lovejoy Pierce cada ano é como abrir um livro: «Suas páginas estão em branco. Nós vamos pôr palavras nele. O livro chama-se oportunidade e seu primeiro capítulo é o dia de ano novo». Se 2017 pudesse constituir uma firma, dar-lhe-ia a designação de «Saboroso & Raríssimo», síntese que exprime, na minha modesta opinião, os destinos do ano que agora finda, sendo tempo de balanços, individuais e colectivos.

De facto, nunca Portugal sentiu os efeitos do abandono da sua floresta como em 2017, em que incêndios dantescos devastaram centenas de quilómetros de território, com prejuízos materiais imensos e perda de mais de 100 vidas humanas. No futuro, quando se abordar este ano nos Anais da História Nacional, dele emergirá o cheiro fétido a terra queimada, as imagens das pessoas tombadas e carbonizadas pelo fogo, a incapacidade das autoridades, a rábula da trovoada seca e do Siresp ou da ministra impossibilitada de gozar as suas férias.

Foram, realmente, meses de raridades, em que uma seca de proporções históricas se associou ao fogo, demonstrando as debilidades nacionais na gestão do bem mais precioso: a água, que agora teima em cair mas que ainda está muito longe de repor os níveis desejáveis, fazendo adivinhar um 2018 de alarme.

No meio do caos, emergiria Marcelo Rebelo de Sousa, um Presidente da República presente e com sentido de Estado, descendo ao nível das pessoas e das coisas do dia a dia, interveniente no momento e no sítio certo. A sua figura, paternalista e orientadora, eclipsou por completo a do seu antecessor, mesmo que não o acompanhe uma primeira-dama como alguns pensam que ele (e o país) precisam desesperadamente.

A Justiça, apesar de todas as suas debilidades e constrangimentos, deu sinais muito positivos, com avanços promissores nos mediáticos casos Face Oculta, Operação Marquês, Vistos Gold ou Máfia de Braga – ainda que “empurrados” pelos media, cada vez mais uma força de pressão, combate e guarda avançada pela lei e ordem. A bem de uma raridade que se deseja vulgar, a nação aguarda pelas decisões finais; culpados e penas exemplares.

A terminar o ano, o escândalo da Associação Rarissímas que forçou a demissão da sua presidente, Paula Brito e Costa, bem como do secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado, e que colocou em maus lençóis o ministro do Trabalho, da Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva. A ex-presidente ficou acusada dos crimes de peculato, falsificação e recebimento indevido de vantagem. No entanto, pelo que se vai vendo e sabendo de outras instituições, pouco haverá de raríssimo neste caso, antes a ponta de um iceberg de promiscuidades tentaculares, que se deseja escrutinado pelas autoridades, de fio a pavio, no todo nacional.

Também merece destaque, pela raridade que vem ostentando, o escândalo dos mails, denunciado pelo Porto Canal, cujos tentáculos, aparentemente, fazem do Apito Dourado coisa de crianças, a prometer um 2018 a ferver, no panorama da justiça desportiva e comum.

E, a findar o ano, qual cereja no topo do bolo, a isenção total de IVA para os partidos políticos, que não contentes com um regime de excepção, aprovaram legislação polémica, de forma quase secreta, avaliada em nove milhões de devolução de impostos, gerando uma onda de indignação que culminou com o veto do Presidente da República.

A nível internacional, 2017 trouxe o fim do autoproclamado Estado Islâmico, grupo terrorista organizado (resta saber por quem e com que interesses), bem como da Guerra na Síria (a que preço e com que consequências para o futuro), e ainda do desejo independentista da Catalunha (fazendo do federalismo ibérico uma via crível e alternativa a bem da segurança nacional espanhola).

Quando o nosso primeiro-ministro António Costa afirmou, todo sorridente, a 14 de Dezembro, num encontro com funcionários portugueses, em Bruxelas, antes do Conselho Europeu, que o ano fora «saboroso», o país ficou perplexo, de pouco valendo a «água benta» atirada pouco depois, procurando emendar um erro de discurso público, para realçar o que o país conquistara no último ano, no plano europeu, e que culminou com a eleição de Mário Centeno, ministro das Finanças de Portugal, como presidente do EuroGrupo, a 04 de Dezembro – sem dúvida alguma um dos factos políticos marcantes do ano.

António Costa tem sabido pilotar, com mestria, a nau da “geringonça”, mas falta-lhe a alma e o calor humano que se exige a quem ocupa tão elevada função política. Esqueceu-se, nesse momento saboroso, do Portugal que lhe confiou os seus destinos: do cheiro nauseabundo das barragens a secarem e do peixe a morrer, das milhares de famílias afectadas pela tragédia florestal de norte a sul, sem direito a Natal condigno e com futuro incerto, dos altos níveis de desemprego ou dos recordes atingidos pela dívida publica.

Um ano saboroso, também, para aqueles que triunfaram nas eleições autárquicas e amargo para os derrotados. Louve-se quem soube ganhar e quem soube perder, sendo certo que o país democrático mostrou a fragilidade de uma direita que tarda em se dissociar da “questão troikiana” e de uma esquerda socialista em consolidação, perante a ascensão de movimentos independentes, que nalguns casos não passam de misturas perigosas de interesses disconexos, sem orientação ou matriz ideológica.

Apesar de tudo, Portugal manteve em 2017 motivos de sobra para ser considerado raríssimo e saboroso: o seu povo aguenta quase tudo, sujeita-se a sacrifícios e humilhações diversas, promove greves e movimentos por dá cá aquela palha, agita nos cafés, adegas e tabernas promessas de revolta – mas tudo finda quando se olha o mar, se viaja na descoberta da natureza e do património, se enche a barriga com a gastronomia típica, ou até quando se bebe uma mini roendo tremoços e amendoins numa esplanada qualquer, aproveitando dois raios de sol. No fundo, cumpre-se o estabelecido no velho aforismo: «com papas e bolos se enganam os tolos», auxiliado pelo nacional-benfiquismo que, unindo emocionalmente milhões, disfarça o sol com a peneira.

Portanto, prepare-se o champanhe, condimente-se o perú, descongele-se a lagosta, contem-se as passas e Bom Ano Novo!

(*) Historiador e investigador