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UC: Docente agredida fugiu “até ficar ‘encurralada’”

18 de Janeiro 2018

Uma professora agredida à machadada na Universidade de Coimbra, em 2014, disse, hoje, em Tribunal, que fugiu, enquanto pôde, “até ficar ‘encurralada’”.

“A primeira machadada não me causou danos, mas, a partir daí, de mais nada me lembro, excepto que sentia dores horríveis”, afirmou Filomena Pinto dos Santos Figueiredo ao ser inquirida pela juíza Ana Vicente.

Professora auxiliar do Departamento de Física da UC, Filomena Figueiredo sofreu golpes de machada, a 04 de Agosto de 2014, infligidos por um ex-doutorando, irlandês, Colin Gloster, que, segundo ela, já praticara “uma série de disparates”.

Entre os alegados disparates, a docente aludiu a um ataque informático à Fundação para a Ciência e Tecnologia, de que Colin Gloster foi bolseiro, e à destruição de material da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC.

Contra a opinião de Filomena Figueiredo, não foi entregue à Polícia participação acerca “dos disparates” que ela atribui ao cidadão irlandês. “Outras pessoas acharam que havia atenuantes para o comportamento” do físico, declarou a docente.

Quanto ao ataque de que foi vítima, a ofendida considera tratar-se de um “acto sem qualquer justificação”, porquanto, segundo ela, ambos os físicos protagonizavam profissionalmente uma “relação neutral”.

A ofendida contou, durante a audiência do julgamento de Colin Gloster, sentir “pavor, hoje em dia”, quando tem de andar à noite pelas ruas.

Mediante requerimento do advogado António Novais Teixeira, que representa a vítima, o depoimento dela foi prestado com o arguido fora da sala de audiências.

A Universidade de Coimbra, que também se constituiu assistente no âmbito do processo, é representada pelo advogado Afonso Pedrosa (da sociedade Coimbra Castanheira).

A ofendida reclama uma indemnização de 100 000 euros, não apenas ao arguido, mas também à UC, a quem ela imputa permissividade.

Colin Gloster, ao confessar o crime de tentativa de homicídio, indicou não haver tido intenção de matar e lamentou que o processo não o contemple como ofendido.

O irlandês justificou o crime alegando que Filomena Figueiredo ignorava as pretensões do arguido, cujo ponto de vista é o de que estava a ser prejudicado.

Ao reconhecer a pretensão de decepar um braço da ofendida, o indivíduo acusou-a de ser “desrespeitosa, agressiva e desonesta”.

Gloster disse ter agido, “em desespero”, sem possuir meios de subsistência

As agressões ocorreram após o indivíduo ter perdido uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

O antigo investigador, que se encontrava na UC desde o ano lectivo de 2009 -10, sofria de autismo e chegara a estar internado.

Por ocasião da estadia em Coimbra, o ex-doutorando viu-se confrontado com várias dificuldades para garantir a bolsa de doutoramento, face a um erro de conversão da sua nota.

Na sequência de conflitos com colegas e docentes, Colin Gloster viu expirar em 2014 a bolsa de investigação que lhe tinha sido atribuída em 2012.

A 04 de Agosto de 2014, o indivíduo deslocou-se à unidade de atendimento académico, onde lhe foi dada indicação que havia mais de 5 000 euros de propinas em dívida e transmitida a renúncia à orientação do seu doutoramento por parte de Rui Curado da Silva.

Dois investigadores conseguiram imobilizar o arguido, até à chegada da PSP, que deteve o doutorando.

Colin Gloster é ainda acusado de gravação ilícita por ter registado o áudio de um interrogatório na PJ, com recurso a um ‘tablet’, sem informar a inspectora Sandra Roxo.

Possuía “pouca confiança” na Polícia Judiciária, desabafou o arguido.