Coimbra  26 de Setembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

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Santa Bárbara: Veneração [só] quando troveja

14 de Março 2018

A limpeza de terrenos em redor de casas de habitação até 15 de Março [de 2018], para dificultar a progressão de incêndios, é uma história para criancinhas. Para crer basta ver o panorama que a foto retrata.
A presente imagem, que não mostra a sucata de dois automóveis, existente por trás da vegetação, foi obtida, esta tarde, a Norte da cidade de Coimbra, mas (iguais) há milhentas ao alcance de uma objectiva em qualquer ponto de Portugal.
Trata-se de uma imagem com a particularidade de ter sido registada a escassos quilómetros da sede da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), cujo presidente, Manuel Machado (PS), lidera a Câmara de Coimbra.
Bem que o Presidente da República preconizou, domingo (11), alguma «elasticidade» em matéria de prazo para limpar terrenos adjacentes às aldeias. À sugestão de Marcelo Rebelo de Sousa replicou o Governo com uma atitude de «orelhas moucas», pelo menos até ao final da primeira metade do dia correspondente à véspera de 15 de Março, embora o secretário de Estado da Protecção Civil já vinque ser importante proceder-se “até ao final de Maio” à limpeza das faixas de gestão de combustível.
Face a incumprimento por parte de proprietários, cabe às câmaras municipais, até 31 de Maio, assegurar a realização de todos os trabalhos de remoção dos materiais capazes de facilitarem a progressão de labaredas.
Segundo a legislação em vigor, a limpeza de terrenos deve prevalecer na extensão de 50 metros em redor das casas (100 se se tratar de aldeias) e a distância mínima entre espécies de arvoredo como eucalipto e pinheiro bravo cifra-se numa dezena de metros.
Para se aferir da ligeireza de algumas autarquias perante o assunto basta dizer, por exemplo, que um Município do distrito de Coimbra alerta para o seguinte: “o incumprimento destas acções de limpeza, são passíveis de aplicação de coimas” (sic). Assim mesmo, sem concordância gramatical (o incumprimento é passível de aplicação de coimas) e com uma vírgula a separar o sujeito do predicado.
Afinal, “à portuguesa”, como disse o Chefe do Estado, não se trata de venerar Santa Bárbara [só] quando troveja. Mas como é que podia haver a pretensão de cumprimento de um prazo que expira na véspera do “Dia Mundial do Sono” (16 de Março)?
Rui Avelar